terça-feira, 23 de dezembro de 2014

A MORADA DE DEUS ENTRE OS POVOS



SAGRADA FAMILIA

Eclo 3,26.12.14; SI 127; CI 3,12-21; Lc 2,22-40
A Festa da Sagrada Família, no ciclo do Natal, desloca a exclusividade do lugar do culto e da presença de Deus do templo, compartilhando-o também com o ambiente familiar. Onde residem o amor, o diálogo e o respeito mútuo, Deus se faz presente. Dessa forma, a vivência do amor em família representa o culto vivencial a Deus que concretiza o mistério celebrado nos ritos.
Família na reciprocidade e respeito
O texto do Eclesiástico se detém na relação entre pais e filhos. Embora para muitos a imagem da família com esposo, esposa e filhos seja ultrapassada, o texto sagrado tem como pano de fundo que a família nasce da relação de amor, o qual abre a experiência da relação homem- -mulher para a acolhida da vida. Sem o princípio do amor torna-se impossível pensar um conceito de família.
Muitas vezes lido a partir da submissão da mulher e dos filhos ao pai, o texto do Eclesiástico acaba sendo mal-interpretado. O primeiro nível do relacionamento entre os pares na família é a reciprocidade. Essa é a razão pela qual o autor sagrado vê os(as) filhos(as) como bênção de Deus. A dignidade e autoafirmação dos filhos nascem numa relação de igualdade e complementaridade, que expressa o amor entre seus pais. Essa é a relação que Deus abençoa e que é celebrada como sacramento.
O texto fala mais das atitudes dos filhos em relação aos pais. Compreende que, para ser lugar da presença de Deus, o lar não se estrutura em cima de capacidades, mas sobre o substrato do amor-acolhida a cada um, segundo seu perfil e dignidade. Quando se olha -a família sob essa perspectiva, o cuidado e o carinho entre seus membros não se limitam aos momentos felizes, mas se estendem também aos momentos difíceis e de necessidade. As feridas que os relacionamentos po-dem produzir serão curadas pelo perdão, e a maldade, pela bondade e beleza do conviver, do reconciliar. Nesse sentido, quando se vive o amor, não há distância entre o culto a Deus, celebrado no templo, e o culto vivencial, vivido como experiência de comunhão na família.
A salvação se concretiza
A apresentação de Jesus no templo e os ritos de purificação de sua mãe estão associados à estrutura do culto do templo. As figuras de Simeão e Ana simbolizam a antiga aliança, que cumpriu sua missão e agora cede lugar à nova que será instaurada por Jesus. O texto deixa a impressão de que Maria e José assistem às reações ante o Menino de uma maneira passiva, como se as atitudes de Simeão e Ana retomassem toda a esperança alimentada ao longo da história do povo de Israel. Eles são idosos, o que poderia sugerir desânimo. Todavia, eles são tomados da alegria da fé e veem em Jesus cumprir-se a salvação esperada.
O fato de serem idosos traz duas implicações importantes. São maduros suficientes para adquirir aquela sabedoria que os leva a relativizar as aparências e a perceber o essencial. Por isso, enxergam; em Jesus o cumprimento das promessas de salvação. Também por esse fato eles adquirem aquela liberdade de espíritoque os torna capazes de, na humildade, retirarem-se e ceder lugar ao novo. Nesse sentido os dois protagonizam a passagem para a nova aliança, que, em jesus, retoma e aperfeiçoa em plenitude à primeira.
O texto parece atingir seu apice no retorno dos três para Nazare É no calor- do lar, ambiente discreto e até meio escondido, que viverão a experiência do novo. Deus estará presente no seio dessa família humilde. Ali será o novo templo, onde o menino crescerá na sabedoria e - graça necessárias para sua missão.
Partindo-se desse pressuposto, a família de Nazaré torna-se mais referencial às famílias por sua vivência do amor e da fé do que propriamente por sua composição (estrutura). Há uma profunda interação entre seus membros Maria e Jose, como pais que amam verdadeiramente o filho, comunicam os valores humanos a Jesus e, este, por sua natureza (divina), faz Deus chegar até eles. Por essa razão, a nova aliança em Jesus universaliza o culto e a presença de Deus, partindo do templo para a família (pessoas) e da família para o templo. Em Jesus toda a nossa vida e história serão assumidas por Deus.
A nova morada de Deus
A celebração da Sagrada Familia reforça que o lugar onde se acolhe e sustenta a vida torna presente o amor de Deus Por essa razão a defesa da famiha esta estreitamente vinculada a defesa da vida e da dignidade humana A experiência cristã não parte do principio da condenação aos erros ou mesmo da estrutura familiar, mas dos valores a serem cultivados em família. A vivência da fé não se restringe ao âmbito dos templos e comunidades. Deus extrapola sempre nõssas medidas, porque quer habitar em nossos corações. Assim, viver o amor em família torna o ambiente familiar lugar do culto vivencial, porque o amor será sempre a have para que Deus venha habitar em nossos corações, em nossas vidas.
A festa de hoje, no espírito do Natal, associa o tema da família à vivência da fé. Quando se retoma o tema da familia e do matrimônio, depara-se sempre com as criticas das diferentes ideologias Na maior parte das vezes,fala-se do machismo e, por conseguinte, que o modelo da família tradicional reforça a submissão da mulher e a discriminação das minorias. Todavia, a dimensão da complementaridade da relação mulher-homem, que encontramos nos relatos bíblicos, não se pauta na perspectiva da dominação de um sobre o outro. Tudo o que é verdadeiramente humano, segundo a visão bíblica, nasce numa relação de igualdade, complementaridade e solidariedade fundamental entre homem e mulher.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

UM MENINO NASCEU PARA NÓS



NATAL DO SENHOR (NOITE)

Is 9,1-3.5-6; SI 95; Tt 2,11-14; Lc 2,1-14
A liturgia desta noite fala-nos de um Deus que ama os homens; por isso, não os deixa perdidos e abandonados a percorrer caminhos de sofrimento e de morte, mas envia “um menino” para lhes apresentar uma proposta de vida e de liberdade. Esse menino será “a luz” para o povo que andava nas trevas.

A primeira leitura anuncia a chegada de “um menino”, da descendência de David, dom de Deus ao seu Povo; esse “menino” eliminará a guerra, o ódio, o sofrimento e inaugurará uma era de alegria, de felicidade e de paz sem fim.

O Evangelho apresenta a realização da promessa profética: Jesus, o “menino de Belém”, é o Deus que vem ao encontro dos homens para lhes oferecer – sobretudo aos pobres e marginalizados – a salvação. A proposta que Ele traz não será uma proposta que Deus quer impor pela força; mas será uma proposta que Deus oferece ao homem com ternura e amor.
A segunda leitura lembra-nos as razões pelas quais devemos viver uma vida cristã autêntica e comprometida: porque Deus nos ama verdadeiramente; porque este mundo não é a nossa morada permanente e os valores deste mundo são passageiros; porque, comprometidos e identificados com Cristo, devemos realizar as obras d’Ele.

1ª Leitura Is 9,1-3.5-6;

Para descrever a situação de opressão, de frustração, de desespero, de falta de perspectivas, de desconfiança em relação ao futuro em que a comunidade nacional estava mergulhada, o profeta fala de um “povo que andava nas trevas” e que habitava “nas sombras da morte”. O panorama é sombrio e parece não haver saída, pois os reis de Judá já provaram ser incapazes de conduzir o seu Povo em direção à felicidade e à paz.
Mas, de repente, aparece uma “luz”. Essa luz acende a esperança e provoca uma explosão de alegria. Para descrever essa alegria, o profeta utiliza duas imagens extremamente sugestivas: é como quando, no fim das colheitas, toda a gente dança feliz celebrando a abundância dos alimentos; é como quando, após a caçada, os caçadores dividem a presa abundante.

Mas por que essa alegria e essa felicidade? Porque o jugo da opressão que pesava sobre o Povo foi quebrado e a paz deixou de ser uma miragem para se tornar uma realidade. No quadro que representa a vitória da paz, vemos os símbolos da guerra (o pesado calçado dos guerreiros e as roupas ensangüentadas) a serem destruídos pelo fogo. Quem é que provocou a alegria do Povo, derrotou a opressão, venceu a guerra, restaurou a paz? O autor não o diz claramente; mas ninguém duvida que tudo isso é ação do Deus libertador.

Como foi que Deus instaurou essa nova ordem? Foi através de “um menino”, enviado para restaurar o trono de David e para reinar no direito e na justiça (as palavras “mishpat” e “zedaqa”, utilizadas neste contexto, evocam uma sociedade onde as decisões dos tribunais fundamentam uma Rita ordem social, onde os direitos dos pobres e dos oprimidos são respeitados e onde, enfim, há paz). O quádruplo nome desse “menino” evoca títulos de Deus ou qualidades divinas (o título “conselheiro maravilhoso” celebra a capacidade de conceber desígnios prodigiosos e é um atributo de Deus – cf. Is 25,1; 28,29; o título “Deus forte” é um nome do próprio Jahwéh – cf. Dt 10,17; Jr 32,18; Sl 24,8; o título “príncipe da paz” leva também a Jahwéh aquele que é “a paz” – cf. Is 11,6-9; Mi 5,4; Zac 9,10; Sl 72,3. 7). Quanto ao título “Pai eterno”, é um título do rei – cf. 1 Sm 24,12 – e é um título dado ao faraó nas cartas de Tell el-Amarna). Fica, assim, claro que esse “menino” é um dom de Deus ao seu Povo e que, com Ele, Deus residirá no meio do seu Povo, oferecendo-lhe cada dia a justiça, o direito, a paz sem fim.

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 95 (96)

Refrão: Hoje nasceu o nosso Salvador, Jesus Cristo, Senhor.

2ª Leitura Tt 2,11-14

Neste fragmento, verdadeiro centro e coração de toda a carta, o autor tenta dar aos cristãos razões válidas para viver uma vida cristã autêntica e comprometida. Quais são essas razões?

A primeira é o amor (“kharis”) de Deus, que foi oferecido a todos os homens. É esse amor que possibilita a renúncia à impiedade e aos desejos deste mundo e a vivência da temperança, da justiça e da piedade; sendo os destinatários desse amor transformador e renovador, temos de viver uma vida nova e comprometida com o Evangelho.
A segunda é a esperança na manifestação gloriosa de Cristo, que convida os homens a perceber que a terra não é a sua pátria definitiva; quem espera a segunda vinda de Cristo, percebe que só faz sentido olhar para os bens essenciais; conseqüentemente, desprezará os bens materiais, que só interessam a este mundo.

A terceira é a obra redentora levada a cabo por Cristo. Cristo entregou-Se totalmente, até a morte, para nos salvar do egoísmo, do orgulho, do pecado e para fazer de nós homens novos. Ligados a Ele pelo batismo, tornamo-nos um com Ele e recebemos vida d’Ele… Se estamos ligados a Cristo e se recebemos d’Ele vida, essa vida tem de manifestar-se na nossa existência diária.

ALELUIA – Lc 2,10-11

Aleluia. Aleluia.

Anuncio-vos uma grande alegria:

Hoje nasceu o nosso Salvador, Jesus Cristo, Senhor.

EVANGELHO – Lc 2,1-14

A primeira indicação importante vem da referência a Belém como o lugar do nascimento de Jesus… É uma indicação mais teológica do que geográfica: o objetivo do autor é sugerir que este Jesus é o Messias, da descendência de David (a família de David era natural de Belém), anunciado pelos profetas (cf. Miq 5,1). Fica, desta forma, claro que o nascimento de Jesus se integra no plano de salvação que Deus tem para os homens – plano que os profetas anunciaram e cuja realização o Povo de Deus aguardava ansiosamente.

Uma segunda indicação importante resulta do “quadro” do nascimento. Lucas descreve com algum pormenor a pobreza e a simplicidade que rodeiam a vinda ao mundo do libertador dos homens: a falta de lugar na hospedaria, a manjedoura dos animais a fazer de berço, os panos improvisados que envolvem o bebê, a visita dos pastores… É na pobreza, na simplicidade, na fragilidade, que Deus se manifesta aos homens e lhes oferece a salvação. Os esquemas de Deus não se impõem pela força das armas, pelo poder do dinheiro ou pela eficácia de uma boa campanha publicitária; mas Deus escolhe vir ao encontro dos homens na simplicidade, na fraqueza, na ternura de um menino nascido no meio de animais, na absoluta pobreza. É assim que Deus entra na nossa história… É assim a lógica de Deus.

Uma terceira indicação é dada pela referência às “testemunhas” do nascimento: os pastores. Trata-se de gente considerada rude, violenta, marginal, que invadiam com os rebanhos as propriedades alheias e que tinham fama de se apropriar da lã, do leite e das crias do rebanho em benefício próprio. Eram, com freqüência, colocados ao lado dos publicanos e dos cobradores de impostos pela rígida moral dos fariseus: uns e outros eram pecadores públicos, incapazes de reparar o mal que tinham feito, tantas eram as pessoas a quem tinham prejudicado. Ora, Lucas coloca, precisamente, esses marginais como as “testemunhas” que acolhem Jesus. O evangelista sugere, desta forma, que é para estes pecadores e marginalizados que Jesus vem; por isso, a chegada de um tal “salvador” é uma “boa notícia”: a partir de agora, os pobres, os débeis, os marginalizados, os pecadores, são convidados a integrar a comunidade dos filhos amados de Deus. Eles vêm ao encontro dessa salvação que Deus lhes oferece, em Jesus, e são convidados a integrar a comunidade da nova aliança, a comunidade do “Reino”.

Uma quarta indicação aparece nos títulos dados a Jesus pelos anjos que anunciam o nascimento: Ele é “o salvador, Cristo Senhor”. O título “salvador” era usado, na época de Lucas, para designar o imperador ou os deuses pagãos; Lucas, ao chamar Jesus desta forma, apresenta-O como a única alternativa possível a todos os absolutos que o homem cria… O título “Cristo” equivale a “Messias”: aplicava-se, no judaísmo palestinense do séc. I, a um rei, da descendência de David, que viria restaurar o reino ideal de justiça e de paz da época davídica; dessa forma, Lucas sugere que o “menino de Belém” é esse rei esperado. O título “Senhor” expressa o caráter transcendente da pessoa de Jesus e o seu domínio sobre a humanidade. Com estes três títulos, a catequese lucana apresenta Jesus aos homens e define o seu papel e a sua missão.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

EIS QUE CONCEBERÁS O SALVADOR!



4º DOMINGO DO ADVENTO – ANO B

2Sm 7,l-5.8b-12.14ª 16; SI 88; Rm I6,25-27; Lc 1,26-48

Aproximando-nos do Natal, a liturgia convida-nos olhar a pessoa de Maria. Substituindo a antiga Arca da Aliança que portava em seu interior as tábuas da lei, Maria, através de seu sim, porta em seu ventre Jesus, cuja vida e atuação recriará a humanidade na ordem da graça. Jesus é a nova lei, não mais fundamentada em regras e normas, mas expressa e vivencjada em atitudes de misericórdia e de acolhida aos pequenos e excluídos da convivência social e religiosa.
A liberdade de Deus 
Após processo de conquista e expansão do território de Israel em sua máxima fronteira, o reino de Davi começa a viver um período de paz (política). Nessa conformação política, são encontradas as condições para o desenvolvimento econômico e a consolidação das classes políticas. A resistência inicial dos juíze e profetas em relação à realeza reside na tentação dos governantes em querer controlar Deus. A reação de Natã ante o desejo de Davi em construir um lugar para a arca da aliança mostra que ele estava, convencido de que toda a ação do rei contava com a aprovação divina.
O Segundo Livro de Samuel destaca que nem toda ação do ei automaticamente esteja de acordo com a vontade de Deus. Embora o texto faça uma ponte para o futuro templo a ser construído por Salomão, ele ressalta o caráter itinerante de Deus ao acompanhar o povo. Tal itinerância já é indicadora da liberdade absoluta de Deus que não poderá ser dominado ou controlado nem mesmo pela realeza de Israel.
Focado na perspectiva da aliança, o autor sagrado reforça que a fonte de estabilidade de Israel é Deus. A vitória sobre os inimigos é fruto da ação dele junto ao povo, e não meramente da estratégia dos governantes ou de seu poder de fogo. Essa é uma correção pedagógica, porque por trás da construção de um templo sempre reside o interesse de controlar o aparelho religioso e, “controlando Deus”, dessa forma, controlar o povo. Nessa passagem de Samuel, embora a promessa refira-se de imediato a Salomão, podemos ver refletida aí uma referência a Jesus, cuja vinda ao mundo será fonte da paz verdadeira.
Bendita entre as mulheres
A cena da anunciação desperta nossa sensibilidade para a bondade divina e para beleza de Maria que, em sua simplicidade, dá sua adesão ao projeto de salvação desejado por Deus. A figura do Anjo revela o que Deus prepara para a humanidade. Maria representa a humanidade que se dispõe a Deus, e a referência a José como descendente de Davi revela a fidelidade de Deus à sua aliança. Ele mantém intacto seu projeto de salvação para a humanidade, gestado desde toda a eternidade.
A proposta de salvação não é uma ação unidirecional, vinda de Deus sem participação da humanidade. Embora o elemento humano seja prescindível, Deus quis precisar de nossa humanidade para realizar seus desígnios salvíficos. Ao dirigir a palavra a Maria, a figura do Anjo revela que a iniciativa é sempre de Deus. A confusão de Maria mostra o inesperado da ação de Deus. Ele é graça que se doa. Por isso, a salvação é fruto de um dkilogo estabelecido entre Deus e a humanidade, em que Deus dá o primeiro passo.
A graça de Deus, por força do Espírito, agirá em Maria e ela conceberá um Filho na linhagem de Davi, isto é, na linhagem da salvação que Deus realizará por meio dele. A partir da limitação humana, Maria não vê a possibilidade de isso ocorrer no nível humano: não conheço homem algum. Essa inquietação de Maria é fundamental para deixar claro que é Deus, por seu poder, que tem a iniciativa e o desejo de salvar. Dessa forma, a imagem da concepção virginal de Maria desloca o lugar da manifestação de Deus dos templos e dos locais “sagrados” para a pessoa humana. Ela será a arca da aliança definitiva.
Cristo, ao nascer de Maria pela força do Espírito, é o Filho de Deus, cuja humanidade é a presença real de Deus na história de homens e mulheres de todos os tempos. Por isso, embora a salvação da humanidade esteja nos desi’gnios de Deus desde sempre, o assentimento de Maria ao convite do Anjo incorpora a adesão de toda a humanidade à salvação que nos chega por Cristo.
O relato da anunciação é convite para experimentarmos o Natal como presença atuante da graça de Deus que nos chega em Jesus. Portanto, não se trata de uma data cronológica, mas teológica. A memória do nascimento de Cristo e de sua preparação (Anunciação) reacende em nós a certeza e esperança que Deus continua fazendo-se presente entre nós a nos oferecer de sua própria vida.
Gerar e acolher a salvação na graça
Pela fé compreendemos que Deus é quem confirma nossa fidelidade ao Evangelho. À medida que nos aprofundamos em nossa experiência de fé, o mistério da redenção, escondido desde sempre, vai revelando-se por meio de Cristo. Nesse sentido, a sagrada escritura prepara mentes e corações para a acolhida de Jesus que, por sua encarnação, se torna revelação palpável do mistério da salvação. Ela, portanto, oferece-nos o conhecimento necessário para chegarmos à fé.
Ao nos preparar para celebrar o memorial do natal, encarnação de Cristo, fica-nos claro que o verdadeiro louvor a Deus reflete nossa acolhida a seu Filho, que é a razão do louvor. A liturgia não se vincula ao tempo cronológico, vinculado a datas. Ela é experiência do kairós, que se refere à qualidade – maturidade que nos conduz à experiência de encontro com Deus. Nesse sentido, é próprio da liturgia atualizar o evento salvífico de Cristo no presente da história. A anunciação, hoje, não se dirige somente a Maria, mas a cada um de nós. Assumindo Cristo como presença da graça divina que nos chega, somos convocados a sutentar a esperança humana na salvação que Deus nos oferece.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

TESTEMUNHA DA LUZ



3º DOMINGO DO ADVENTO – ANO B

Is 61,1-2ª.10-11; Lc 1,46.54; 1Ts 5,16-24; J0 1,6-8.19-28
O terceiro domingo do Advento aprofunda a reflexão sobre a vinda de Jesus como boa nova de libertação. No imaginário de Israel, o tempo da libertação seria inaugurado quando Elias, o profeta idealizado, voltasse. Por essa razão, os escritos do Novo Testamento que buscam relatar os tempos imediatamente anteriores ao início do ministério de Jesus, retomam a figura de João Batista. Indicador da presença de Deus no meio povo, ele serve para mostrar a continuidade entre a primeira aliança e a nova aliança em Cristo.
O ano da graça...
No exíIio babilônico, os israelitas que foram deportados desenvolveram diversos elementos culturais e religiosos que mantiveram sua identidade de nação. Com isso alimentaram a esperança de retorno à região de Israel.
O chamado terceiro Isaías (c. 56-66), vivendo com os exilados as alegrias do retorno à terra, além de alimentar a esperança e robustecer a fé do povo, relê os fatos à luz da ação de Deus. O capítulo 61 pode ser chamado de “evangelho de Isaías”. A unção do Espírito, que sustenta a esperança do povo, leva-o a ser porta-voz da boa notícia da salvação-libertação.
Isaías traz o anúncio da boa-notícia aos humildes, a cura aos feridos da alma, a redenção aos cativos e a liberdade aos presos. Essas propostas expressam a situação e o espírito do povo durante o exílio. Não trazem apenas uma condenação às formas de opressão, mas colocados num paralelo servem como elementos que ajudam o povo a aprofundar o sentido de sua fé. Viver a experiência do sofrimento, provocado pela injustiça, leva o povo a amar a justiça, e a repelir de seu meio quaisquer práticas que possam reproduzir a situação de humilhação, prisão e ferida que viveu no exílio. Viver a mesma situação dos pobres e sofredores deve levar os fiéis à experiência da solidariedade.
A consequência de tudo isso é o anúncio do ano da graça de Deus. Embora ainda marcado por uma mentalidade de vingança (v. 2b), o profeta busca reconstruir sobre os escombros a dignidade do povo, O ano da graça do Senhor revela que Deus age para nos salvar, apesar de nossos pecados. A unção do Espírito (v. 1) reveste o povo de salvação e justiça. Passando pelo sofrimento, o povo é chamado à prática da justiça e da misericórdia. À medida que vive isso, mostra a fecundidade de Deus em seu meio. O ano da graça acontece quando livre de seu orgulho, o povo vive na prática o princípio da justiça e da solidariedade como expressão de sua fé.
Uma voz que clama...
O evangelho de hoje compõe-se de um recorte do preâmbulo do evangelho de João (1,1-18) e a narrativa sobre João Batista (1,19-28). Para João, Jesus é a luz que vem ao mundo, porque é a palavra de Deus que se encarna (1,14) e recobra sua força criadora, gerando uma humanidade nova na graça (1,1-4).
A imagem de João Batista é purificada. Sob a perspectiva da vinda de Jesus, ele é apresentado como “enviado de Deus” para dar testemunho da luz e conduzir o povo à fé. A relação entre luz e trevas, tão presente no evangelho de João, descreve não somente a oposição entre a vida e a morte, mas antecipa o conflito crescente entre a estrutura religiosa e Jesus. O apego a estruturas antigas e a negação da misericórdia correspondem às trevas que impedem as pessoas de se aproximar de Deus.
É próprio do evangelho de João que as personagens tenham identidades claras. Por isso, já de início, o Batista não é identificado com o messias, nem Elias ou um profeta. Tendo presente a profecia de Isaias (1,23), para o quarto evangelho, João é a profecia, que anuncia os novos tempos a serem inaugurados por Jesus Por isso ele e a transição que faz a primeira aliança desembocar (batismo) na nova e definitiva aliança em Jesus.
A ação e diálogo de João com os sacerdotes se dão em Betânia (1,28), local da ressurreição de Lazaro (11,1-45) Essa indicação geográfica já sinaliza o caráter do batismo de Jesus que cõmunica a vida, resgatando da morte o gênero humano. O cumprimento do desígnio salvífico de Deus realiza-se plenamente em Jesus, para- o qual João Batista nos aponta.
Uma humanidade nova
Como anúncio da vinda de Cristo, o tempo do advento é convite à confiança em Deus. Relacionando seu nascimento com o início de seu ministério (leituras), a Igreja expressa a razão de sua alegria e, de coração agradecido, vive o mistério do natal como a única e definitiva boa nova que nos vem de Deus por Jesus. Resgatando os elementos• explícitos da- profecia que sugerem a vinda de Cristo, convida os fiéis a percepção da linha de continuidade entre o anuncio do Primeiro Testamento e a vinda de Cristo. A partir dessa verdade que professa, o cristão e chamado ao discernimento, para escolher o que e bom e orientar sua prática segundo os valores do Reino.
A memória do primeiro advento quer levar-nos à compreensão de que Deus nos santifica (espírito, alma, corpo) em função da vinda de Çristo (2a leitura). Esse tempo de preparação para o natal é fecundo, põrque conduz a Igreja à esperança e ao anúncio da humanidade nova inaugurada em Cristo.