II DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO B
1 Sam 3, 3b-10.19; Salmo 39 (40); 1 Cor
6,13c-15a.17-20; Jo 1,35-42
A liturgia do
2º Domingo do Tempo Comum propõe-nos uma reflexão sobre a disponibilidade para
acolher os desafios de Deus e para seguir Jesus.
A primeira
leitura apresenta-nos a história do chamamento de Samuel. O autor desta
reflexão deixa claro que o chamamento é sempre uma iniciativa de Deus, o qual
vem ao encontro do homem e chama-o pelo nome. Ao homem é pedido que se coloque
numa atitude de total disponibilidade para escutar a voz e os desafios de Deus.
O Evangelho
descreve o encontro de Jesus com os seus primeiros discípulos. Quem é
“discípulo” de Jesus? Quem pode integrar a comunidade de Jesus? Na perspectiva
de João, o discípulo é aquele que é capaz de reconhecer no Cristo que passa o
Messias libertador, que está disponível para seguir Jesus no caminho do amor e
da entrega, que aceita o convite de Jesus para entrar na sua casa e para viver
em comunhão com Ele, que é capaz de testemunhar Jesus e de anunciá-l’O aos
outros irmãos.
Na segunda
leitura, Paulo convida os cristãos de Corinto a viverem de forma coerente com o
chamamento que Deus lhes fez. No crente que vive em comunhão com Cristo deve
manifestar-se sempre a vida nova de Deus. Aplicado ao domínio da vivência da
sexualidade – um dos campos onde as falhas dos cristãos de Corinto eram mais
notórias – isto significa que certas atitudes e hábitos desordenados devem ser
totalmente banidos da vida do cristão.
1ª Leitura – 1 Sam 3, 3b-10.19
CONTEXTO
O Livro de Samuel refere-se a uma das épocas mais marcantes da
história do Povo de Deus. Os acontecimentos narrados abrangem um arco de tempo
que vai de meados do séc. XI a.C. até ao final do reinado de David (972 a.C.) e
dão-nos uma visão global do caminho feito pelo Povo de Deus desde que era um
conjunto de tribos autônomas e sem grande ligação entre si, até ao tempo da
união à volta da realeza dravídica.
Os primeiros capítulos do Livro de Samuel situam-nos ainda na fase pré-monárquica. É uma época paradoxal e cheia de ambiguidades… Por um lado, observa-se um processo crescente de sedentarização, de consolidação e de unificação das tribos no território de Canaan, a partir de determinados elementos unificadores, como sejam os “juízes”, os pactos de defesa diante dos inimigos comuns, as federações de tribos vizinhas e os santuários que periodicamente acolhem a Arca da Aliança e assentam as bases da fé monoteísta; por outro lado, observa-se também a precariedade das coligações defensivas diante dos ataques inimigos, a escassa consciência unitária, o descrédito de alguns “juízes” (nomeadamente dos filhos de Eli e, mais tarde, dos filhos de Samuel)… As instituições tribais revelam-se manifestamente insuficientes para responder às novas exigências, nomeadamente à pressão militar exercida pelos filisteus. O modelo monárquico dos povos vizinhos começa a seduzir as tribos do Povo de Deus e a parecer a solução ideal para responder adequadamente aos desafios da história.
Samuel aparece nesse tempo caótico. Pertence à tribo de Efraim – quer dizer, a uma tribo instalada no centro do país, na montanha de Efraim (onde, aliás, Samuel exerce o seu ministério). O Livro de Samuel apresenta-o como um “juiz” (narra-se o seu nascimento maravilhoso nos mesmos moldes que o nascimento de Sansão – 1 Sm 1; cf. Jz 13); mas logo se diz que ele foi educado no templo de Silo, onde estava depositada a Arca da Aliança (1 Sm 2,18-21) – o que significa que exercia igualmente funções litúrgicas. Mais tarde irá ser chamado, num período de desolação, a conduzir o Povo no combate contra os filisteus.
Os primeiros capítulos do Livro de Samuel situam-nos ainda na fase pré-monárquica. É uma época paradoxal e cheia de ambiguidades… Por um lado, observa-se um processo crescente de sedentarização, de consolidação e de unificação das tribos no território de Canaan, a partir de determinados elementos unificadores, como sejam os “juízes”, os pactos de defesa diante dos inimigos comuns, as federações de tribos vizinhas e os santuários que periodicamente acolhem a Arca da Aliança e assentam as bases da fé monoteísta; por outro lado, observa-se também a precariedade das coligações defensivas diante dos ataques inimigos, a escassa consciência unitária, o descrédito de alguns “juízes” (nomeadamente dos filhos de Eli e, mais tarde, dos filhos de Samuel)… As instituições tribais revelam-se manifestamente insuficientes para responder às novas exigências, nomeadamente à pressão militar exercida pelos filisteus. O modelo monárquico dos povos vizinhos começa a seduzir as tribos do Povo de Deus e a parecer a solução ideal para responder adequadamente aos desafios da história.
Samuel aparece nesse tempo caótico. Pertence à tribo de Efraim – quer dizer, a uma tribo instalada no centro do país, na montanha de Efraim (onde, aliás, Samuel exerce o seu ministério). O Livro de Samuel apresenta-o como um “juiz” (narra-se o seu nascimento maravilhoso nos mesmos moldes que o nascimento de Sansão – 1 Sm 1; cf. Jz 13); mas logo se diz que ele foi educado no templo de Silo, onde estava depositada a Arca da Aliança (1 Sm 2,18-21) – o que significa que exercia igualmente funções litúrgicas. Mais tarde irá ser chamado, num período de desolação, a conduzir o Povo no combate contra os filisteus.
Samuel é uma figura complexa e multifacetada, simultaneamente juiz,
sacerdote e chefe dos exércitos. De algum modo, faz a ponte entre uma época de
confusão e de escassa consciência unitária, para uma época onde começa a
estruturar-se uma organização mais centralizada.
O texto que nos é proposto como primeira leitura apresenta a vocação de Samuel. A cena situa-nos no santuário de Silo, onde estava a Arca da Aliança. Samuel, consagrado a Deus por sua mãe, era servidor do santuário.
O texto que nos é proposto como primeira leitura apresenta a vocação de Samuel. A cena situa-nos no santuário de Silo, onde estava a Arca da Aliança. Samuel, consagrado a Deus por sua mãe, era servidor do santuário.
Para o nosso autor, o chamamento de Samuel marca o início do movimento
profético… Antes, “o Senhor falava raras vezes e as visões não eram frequentes”
(1 Sm 3,1); depois, “o Senhor continuou a manifestar-Se em Silo. Era ali que o
Senhor aparecia a Samuel, revelando-lhe a sua Palavra” (1 Sam 3,21).
O quadro da
vocação de Samuel não nos apresenta, com certeza, uma reportagem jornalística
de fatos; apresenta-nos, sim, uma reflexão sobre o chamamento de Deus e a
resposta do homem, redigida de acordo com o esquema típico dos relatos de
vocação.
Salmo 39 (40)
Refrão: Eu venho, Senhor, para fazer a
vossa vontade.
2ª Leitura – 1 Cor 6,13c-15a.17-20
CONTEXTO
No decurso da
sua segunda viagem missionária, Paulo chegou a Corinto, depois de atravessar
boa parte da Grécia, e ficou por lá cerca 18 meses (anos 50-52). De acordo com
Act 18,2-4, Paulo começou a trabalhar em casa de Priscila e Áquila, um casal de
judeo-cristãos. No sábado, usava da palavra na sinagoga. Com a chegada a Corinto
de Silvano e Timóteo (2 Cor 1,19; Act 18,5), Paulo consagrou-se inteiramente ao
anúncio do Evangelho. Mas não tardou a entrar em conflito com os judeus e foi
expulso da sinagoga.
Corinto, cidade nova e próspera, era a capital da Província romana da Acaia e a sede do pro cônsul romano. Servida por dois portos de mar, possuía as características típicas das cidades marítimas: população de todas as raças e de todas as religiões. Era a cidade do desregramento para todos os marinheiros que cruzavam o Mediterrâneo, ávidos de prazer, após meses de navegação. Na época de Paulo, a cidade comportava cerca de 500.000 pessoas, das quais dois terços eram escravos. A riqueza escandalosa de alguns contrastava com a miséria da maioria.
Corinto, cidade nova e próspera, era a capital da Província romana da Acaia e a sede do pro cônsul romano. Servida por dois portos de mar, possuía as características típicas das cidades marítimas: população de todas as raças e de todas as religiões. Era a cidade do desregramento para todos os marinheiros que cruzavam o Mediterrâneo, ávidos de prazer, após meses de navegação. Na época de Paulo, a cidade comportava cerca de 500.000 pessoas, das quais dois terços eram escravos. A riqueza escandalosa de alguns contrastava com a miséria da maioria.
Como
resultado da pregação de Paulo, nasceu a comunidade cristã de Corinto. A maior
parte dos membros da comunidade eram de origem grega, embora em geral, de
condição humilde (cf. 1 Cor 11,26-29; 8,7; 10,14.20; 12,2); mas também havia
elementos de origem hebraica (cf. Act 18,8; 1 Cor 1,22-24; 10,32; 12,13).
De uma forma
geral, a comunidade era viva e fervorosa; no entanto, estava exposta aos
perigos de um ambiente corrupto: moral dissoluta (cf. 1 Cor 6,12-20; 5,1-2),
querelas, disputas, lutas (cf. 1 Cor 1,11-12), sedução da sabedoria filosófica
de origem pagã que se introduzia na Igreja revestida de um superficial verniz
cristão (cf. 1 Cor 1,19-2,10).
Tratava-se de uma comunidade forte e vigorosa, mas que mergulhava as suas raízes em terreno adverso. No centro da cidade, o templo de Afrodite, a deusa grega do amor, atraía os peregrinos e favorecia os desregramentos e a libertinagem sexual. Os cristãos, naturalmente, viviam envolvidos por este mundo e acabavam por transportar para a comunidade alguns dos vícios da cultura ambiente. Na comunidade de Corinto, vemos as dificuldades da fé cristã em inserir-se num ambiente hostil, marcado por uma cultura pagã e por um conjunto de valores que estão em profunda contradição com a pureza da mensagem evangélica.
Tratava-se de uma comunidade forte e vigorosa, mas que mergulhava as suas raízes em terreno adverso. No centro da cidade, o templo de Afrodite, a deusa grega do amor, atraía os peregrinos e favorecia os desregramentos e a libertinagem sexual. Os cristãos, naturalmente, viviam envolvidos por este mundo e acabavam por transportar para a comunidade alguns dos vícios da cultura ambiente. Na comunidade de Corinto, vemos as dificuldades da fé cristã em inserir-se num ambiente hostil, marcado por uma cultura pagã e por um conjunto de valores que estão em profunda contradição com a pureza da mensagem evangélica.
Em 1 Cor 6,12
aparece uma frase – possivelmente do próprio Paulo – que servia a alguns
cristãos de Corinto para justificar os seus excessos: «Tudo me é permitido»…
Paulo explica que “«tudo me é permitido», mas nem tudo é conveniente; «tudo me
é permitido», mas eu não me farei escravo de nada”. Na sequência, Paulo recorda
aos crentes da comunidade as exigências da sua adesão a Cristo.
• A questão
essencial que Paulo nos coloca é a seguinte: Deus chama-nos a acolher a vida
nova que Ele nos oferece e a dar testemunho dela em cada instante da nossa existência.
A Palavra de Deus que nos é proposta convida-nos, antes de mais, a tomar
consciência desse chamamento e a aceitar “embarcar” nessa viagem que Deus nos
propõe e que nos conduz ao encontro da verdadeira liberdade e da verdadeira
realização.
• Acolher o
chamamento de Deus significa assumir, em todos os momentos e circunstâncias,
comportamentos coerentes com a nossa opção por Cristo e pelo Evangelho. Nada do
que é egoísmo, exploração do outro, abuso dos direitos e dignidade do outro,
procura desordenada do bem próprio à custa do outro, pode fazer parte da vida
do cristão. O cristão é alguém que se comprometeu a ser um sinal vivo de Deus e
a testemunhar diante do mundo – com palavras e com gestos – essa vida de amor,
de serviço, de doação, de entrega que Deus, em Jesus, nos propôs. Membro do
“corpo” de Cristo, o cristão é “corpo” no qual se manifesta a proposta do
próprio Cristo para os homens e mulheres do nosso tempo. Isto obriga-nos a nós,
os crentes, a comportamentos coerentes com o nosso compromisso batismal.
• A
propósito, Paulo coloca o problema da vivência da sexualidade… Essa importante
dimensão da nossa realização como pessoas não pode concretizar-se em ações
egoístas, que nos escravizam a nós e que instrumentalizam os outros; mas tem de
concretizar-se num quadro de amor verdadeiro, de relação, de entrega mútua, de
compromisso, de respeito absoluto pelo outro e pela sua dignidade. Neste campo
surgem, com alguma frequência, denúncias de comportamentos e atitudes, dentro e
fora da Igreja, que afetam e magoam vítimas inocentes do egoísmo dos homens.
Esses fatos, se têm de ser enquadrados no contexto da fragilidade que marca a
nossa humanidade, demonstram também a necessidade de uma contínua conversão a
Cristo e aos seus valores. Para o cristão, tudo o que signifique explorar os
irmãos ou desrespeitar a sua dignidade e integridade é um comportamento
proibido.
• É
importante, para os crentes, ter consciência de que liberdade não é um valor
absoluto. A liberdade cristã não pode traduzir-se em comportamentos e opções
que subvertam os valores do Evangelho e que neguem a nossa opção fundamental
por Cristo. Uma certa mentalidade atual considera que só nos realizaremos
plenamente se pudermos fazer tudo o que nos apetecer… Contudo, o cristão tem de
ter consciência de que “nem tudo lhe convém”. Aliás, certas opções contrárias
aos valores do Evangelho não conduzem à liberdade, mas à dependência e à
escravidão.
• Qual é o
verdadeiro “culto” que Deus pede? Como é que traduzimos, em gestos concretos, a
nossa adesão a Deus? Paulo sugere que o verdadeiro culto, o culto que Deus
espera, é uma vida coerente com os compromissos que assumimos com Ele,
traduzida em gestos concretos de amor, de entrega, de doação, de respeito pelo
outro e pela sua dignidade.
ALELUIA – cf. Jo 1,41.17b
Aleluia. Aleluia.
Encontramos o Messias, que é
Jesus Cristo.
Por Ele nos veio a graça e a verdade.
EVANGELHO – Jo 1,35-42
CONTEXTO
A perícopa
que nos é proposta integra a secção introdutória do Quarto Evangelho (cf. Jo
1,19-3,36). Aí o autor, com consumada mestria, procura responder à questão:
“quem é Jesus?”
João dispõe as peças num enquadramento cênico. As diversas personagens que vão entrando no palco procuram apresentar Jesus. Um a um, os autores chamados ao palco por João vão fazendo afirmações carregadas de significado teológico sobre Jesus. O quadro final que resulta destas diversas intervenções apresenta Jesus como o Messias, Filho de Deus, que possui o Espírito e que veio ao encontro dos homens para fazer aparecer o Homem Novo, nascido da água e do Espírito.
João dispõe as peças num enquadramento cênico. As diversas personagens que vão entrando no palco procuram apresentar Jesus. Um a um, os autores chamados ao palco por João vão fazendo afirmações carregadas de significado teológico sobre Jesus. O quadro final que resulta destas diversas intervenções apresenta Jesus como o Messias, Filho de Deus, que possui o Espírito e que veio ao encontro dos homens para fazer aparecer o Homem Novo, nascido da água e do Espírito.
João
Baptista, o profeta/precursor do Messias, desempenha aqui um papel especial na
apresentação de Jesus (o seu testemunho aparece no início e no fim da secção –
cf. Jo 1,19-37; 3,22-36). Ele vai definir aquele que chega e apresentá-lo aos
homens.
O nosso texto apresenta-nos os primeiros três discípulos de Jesus: André, um outro discípulo não identificado e Simão Pedro. Os dois primeiros são apresentados como discípulos de João e é por indicação de João que seguem Jesus. Trata-se de um quadro de vocação que difere substancialmente dos relatos de chamamento dos primeiros discípulos apresentados pelos sinópticos (cf. Mt 4,18-22; Mc 1,16-20; Lc 5,1-11). Mais do que uma reportagem realista de acontecimentos concretos, o autor do Quarto Evangelho apresenta aqui um modelo de chamamento e de seguimento de Jesus.
O nosso texto apresenta-nos os primeiros três discípulos de Jesus: André, um outro discípulo não identificado e Simão Pedro. Os dois primeiros são apresentados como discípulos de João e é por indicação de João que seguem Jesus. Trata-se de um quadro de vocação que difere substancialmente dos relatos de chamamento dos primeiros discípulos apresentados pelos sinópticos (cf. Mt 4,18-22; Mc 1,16-20; Lc 5,1-11). Mais do que uma reportagem realista de acontecimentos concretos, o autor do Quarto Evangelho apresenta aqui um modelo de chamamento e de seguimento de Jesus.

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