segunda-feira, 26 de maio de 2014

ASCENSÃO DO SENHOR - ANO A



O DESTINO DO HOMEM NOVO

1ª Leitura At 1,1-11 – 2ª Ef 1,17-23 – Ev. Mt 28,16-20

Interpretando teologicamente a Ascensão de Jesus, recomendam os anjos que não fique a olhar o céu, mas que se espere e prepare a volta gloriosa do Senhor. Esta é, até o fim dos tempos, a missão da Igreja, em tensão entre o visível é o invisível, entre a realidade presente e a futura cidade para qual caminhamos. 

O homem à direita de Deus 
 
A fórmula do nosso Creio: “Ressuscitou, subiu aos céus, está sentado à direita do Pai”, exprime a fé pessoa da Igreja no destino de Jesus de Nazaré. Este homem, com o qual os apóstolos “comeram e beberam” durante sua existência terrena, “torno-se Senhor” depois de sua morte porque o Pai o associou definitivamente à sua vida, ao seu poder sobre os homens e sobre o mundo: “Todo poder me foi dado no céu e na terra” (evangelho ano A). Vivo, depois de sua paixão (1ª leitura), está ele presente entre os seus numa dimensão, e anda com eles nos caminhos do mundo, aonde os envia como testemunha da ressurreição, anunciadores do perdão dos pecados e da vida de filhos de Deus, portadores da força do Espírito que reúne os homens e todas as nações na única Igreja. Com a fé e o batismo, todos os homens entram na nova dimensão do Ressuscitado, pensam e buscam “as coisas do alto, onde Cristo está sentado á direita de Deus”, participam, como membros do corpo de Cristo, da “plenitude daquele que completa inteiramente todas as coisas” (2ª leitura).
Pensando nesta realidade, podem-se compreender as expressões de entusiasmo dos antigos cristãos: “A ascensão do Cristo é a nossa ascensão; já que o Corpo é convidado a elevar-se até a glória em que precedeu a cabeça, vamos cantar nossa alegria expandir em ação de graças todo nosso júbilo. Hoje, não apenas conquistamos o paraíso, mas, no Cristo, penetramos nos mais altos céus”.

O céu é Alguém

Afirmar que a humanidade na pessoa do Cristo, já esta no céu, significa contestar as imagens espontâneas de um céu “espacial”, e a de uma felicidade eterna que começaria repentinamente, depois desta vida no tempo. Para Jesus, o céu é a participação plena da vida de Deus, de um homem verdadeiro, possuindo a mesma matéria e a mesma história de todo nós; uma relação nova entre o Criador e a criatura numa total transparência, livre dos limites e das dificuldades da condição terrena.  Pra nós será assim um dia, quando se manifestar abertamente aquilo que já somos; pelo conhecimento e o amor. O corpo não for mais obstáculo, mas perfeito meio de comunicação. Um céu assim não simplesmente a “recompensa” de uma vida justa e boa, porque “os sofrimentos do momento presente não são comparáveis com a glória futura que será revelada em nós. Nem tampouco um narcótico para pessoas passivas e resignadas, um álibi para o compromisso de trabalhar neste mundo pela realização daqueles valore de liberdade, justiça, paz, fraternidade, comunhão, vida, amor. Alegria, que constitui a bem-aventuranças do homem completo segundo o plano de Deus. Uma comunidade dos que crêem e caminham nesta direção – isto é, aberta ao mundo, a serviço de todos – torna-se testemunha da nova humanidade realizada em Cristo Jesus. 
 
Realidade terrestre e engajamento dos que crêem 
 
Um novo equilíbrio a ser encontrado: “Somos advertidos, com efeito, de que não adianta ao homem ganhar o mundo inteiro se vier a perder a si mesmo. Contudo, a esperança de uma nova terra, longe de atenuar, antes deve estimular a solicitude pelo aperfeiçoamento desta terra. Nela cresce o Corpo da nova família humana que já pode apresentar algum esboço do novo século. Por isso, ainda que o progresso terreno deva ser cuidadosamente distinguido do aumento do Reino de Cristo, contudo é de grande interesse par o Reino de Deus, na medida em que pode contribuir para organizar a sociedade humana”.

terça-feira, 20 de maio de 2014

6º DOMINGO DA PÁSCOA - A ANO

Primeira Leitura: At 8,5-8.14-17 
Impuseram-lhes as mãos, e eles receberam o Espírito Santo.
A morte de Estêvão foi o estopim para que em Jerusalém explodisse a perseguição contra os cristãos de cultura grega, à frente dos quais estava o próprio Estêvão. Por causa dela, os fiéis se dispersaram. Lucas vê nesse fato a chance providencial que a comunidade tem de levar o anúncio da palavra de Deus aos que ainda não a conhecem. Se em Jerusalém o anúncio provocou perseguição, na Samaria suscitará contentamento. Temos aqui uma das grandes forças da palavra de Deus: a capacidade de confraternizar povos inimigos (compare com Lc 9,51ss). De fato, judeus e samaritanos detestavam-se mutuamente. Agora, a Samaria acolhe o anúncio da Palavra, feito por intermédio de Filipe, um dos sete ministros (8,5; cf. 6,5).
Filipe é apresentado como modelo de evangelizador que sai de Jerusalém para levar o testemunho a todos (cf. 1,8). Fica, assim, caracterizado o tipo da comunidade evangelizadora: a que não põe fronteiras ao trabalho pastoral. A missão do evangelizador é prolongamento do que Jesus disse e fez. Consta de anúncio e de fatos. Filipe anuncia o Cristo (v. 5) e realiza milagres (v. 6). As duas atividades estão unidas entre si. Anunciar o Cristo é já mostrá-lo presente na ação concreta. Por isso, a pregação de Filipe é acompanhada pela expulsão dos espíritos maus e pela cura de paralíticos e aleijados (como fez o próprio Jesus). Em outras palavras, anunciar o Cristo é eliminar tudo o que aliena e despersonaliza o ser humano (demônios), dando às pessoas condições para que assumam responsavelmente a própria caminhada (cura dos paralíticos e aleijados). O clima que esses acontecimentos suscita é o da alegria messiânica (cf. 2,46; Lc 2,10), que contagia a quantos aceitam Jesus como o Libertador e Senhor de suas vidas (v. 8).
A Igreja de Jerusalém toma conhecimento do que a palavra de Deus realizou na Samaria. E envia para lá Pedro e João (v. 14). Sua tarefa é completar a evangelização mediante a oração e a imposição das mãos. Os samaritanos recebem o Espírito Santo. No plano de Lucas, realiza-se o Pentecostes dos pagãos (os samaritanos eram considerados pagãos pelos judeus). O Espírito vai conduzindo a evangelização, fazendo que muitos povos se integrem ao único povo messiânico. O Espírito não é propriedade dos apóstolos. Estes, sim, são servos do Espírito, pois ele os conduz e impulsiona. Assim, de acordo com At 1,8, os discípulos de Jesus se tornam testemunhas na Judéia (Jerusalém), na Samaria e até nos confins do mundo (o resto do livro dos Atos), pois o Espírito da Verdade (cf. evangelho) é o dinamismo da comunidade cristã missionária.                                              
Segunda Leitura: 1Pd 3,15-18 
Sofreu a morte na sua existência humana, mas recebeu nova vida pelo Espírito.
Os vv. 13-14, apesar de não constarem no texto lido hoje, ajudam na compreensão do contexto. 'Quem lhes fará mal, se vocês se esforçam em fazer o bem? Se sofrem por causa da justiça, felizes de vocês! Não tenham medo deles, nem fiquem assustados'. Pedro escreve a cristãos que sofrem (cf. II leitura do domingo passado). Os sofrimentos daquelas comunidades da Ásia Menor tinham duas causas: em primeiro lugar, a situação social em que viviam – eram migrantes, trabalhadores, escravos; em segundo lugar, a luta que sustentavam – queriam que fosse feita justiça, que seus direitos e dignidade fossem reconhecidos. Por causa disso eram vistos como subversivos.
Pedro lhes diz que, se sofrem por causa da justiça, são felizes (v. 14). É a concretização da bem-aventurança anunciada por Jesus (cf. Mt 5,10). Não são bem-aventurados pelo sofrimento em si. O sofrimento não faz ninguém feliz! São bem-aventurados por causa da motivação profunda que anima sua luta: a justiça que visa criar o reino de Deus, o projeto de Deus.
Pedro anima as comunidades, dizendo-lhes que não devem ter medo dos que as consideram subversivas e arrastam seus membros aos tribunais. Pelo contrário, devem 'santificar em seus corações o Senhor Jesus Cristo', ou seja, reconhecer de coração (plena e absolutamente) que o único Senhor é Jesus! Essa motivação deve estar sempre presente e animar todas as esperanças e anseios das pessoas (v. 15).
Bons modos, respeito e consciência limpa são os instrumentos para a conquista da justiça (v. 16a), resposta que desarma a grosseria, a violência e a corrupção dos que fomentam a injustiça. Temos aqui o ideal da não-violência ativa (cf. Mt 5,38-40), capaz de fazer ruir a sociedade injusta (v. 16b).
A norma de comportamento cristão é a prática de Jesus (v. 18). O justo morreu pelos injustos, a fim de os conduzir a Deus. Contudo, a morte de Jesus não quer dizer que a injustiça tenha vencido. Pelo contrário, da morte nasceu a vida nova do Espírito Santo. Esse mesmo Espírito é que age agora nos fiéis, levando-os à prática de Jesus. Fazendo o que ele fez, os cristãos oferecem sua colaboração indispensável na construção do reino de Deus. Esse reino é o ideal proposto por Deus, que coincide com os profundos anseios da humanidade sedenta de justiça, liberdade e dignidade reconhecida.
O v. 17 não pretende atribuir a Deus a vontade de fazer sofrer as pessoas. De fato, ele não sente prazer no sofrimento humano. O próprio Jesus o demonstrou. O sofrimento diminui o ser de Deus presente nas pessoas. Contudo, o projeto de Deus sabe valorizar o sofrimento. Do sofrimento nasce o desejo de liberdade e vida. E Deus o transforma em energia que supera as injustiças que o provocam.
Evangelho: Jo 14,15-21 
Eu rogarei ao Pai e ele vos dará outro Defensor.
Num contexto de ódio e de perseguição, a promessa feita por Jesus de dar aos discípulos o Espírito da Verdade reveste-se de suma importância. Foi a forma de protegê-los contra o erro e a mentira, ciladas montadas pelo mundo para desviá-los do bom caminho. Sem esta ajuda salutar, com muita probabilidade, deixar-se-iam levar pelas sugestões do falso espírito, chegando a renegar sua condição de discípulos. Pois, enquanto o Espírito da Verdade conduz ao Deus verdadeiro, o espírito da mentira conduz aos falsos deuses, aos ídolos.
O Espírito é designado como Paráclito, ajudante dos discípulos de Jesus. Assim, não seriam deixados à própria sorte, numa espécie de perigosa orfandade. A presença do Espírito de Verdade junto deles daria continuidade à de Jesus. Eles teriam sempre a quem recorrer, pois o Espírito estaria neles e "com eles para sempre".

A comunidade cristã sempre correria o sério risco de ser levada pelo espírito da mentira. Por isso, precisava da presença constante do Espírito da Verdade para manter-se sempre no bom caminho. Quanto maior esse risco, tanto mais necessária fazia-se a presença desse Espírito que conduz à verdade e à vida. Ele haveria de ser uma luz a expulsar as trevas, de modo a permitir aos discípulos caminhar com segurança rumo à casa do Pai.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

VIII DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A - 2014

A CONFIANÇA EM DEUS 

1ª Leitura Is 49, 14-15 

• A um Povo que vive numa situação dramática de frustração, de desorientação, de total incerteza em relação ao futuro, que olha à volta e não vê Deus presente na sua caminhada, que começa a duvidar do amor e da fidelidade de Deus, o profeta diz: “não desanimeis: apesar da aparente ausência, Deus ama-vos ainda mais do que uma mãe ama o filho; por isso, Ele continua comprometido convosco, continua a percorrer convosco esse caminho histórico que, dia a dia, vos leva ao encontro da vida plena”. É uma mensagem eterna, consoladora e repousante… Num mundo em que as referências se alteram rapidamente, em que o futuro é incerto e a humanidade não sabe exactamente para onde caminha, em que o terrorismo, a guerra, as ameaças ambientais, o totalitarismo dos bens materiais ameaçam o frágil equilíbrio da humanidade, somos convidados a descobrir o amor materno de Deus, a sua solicitude nunca desmentida, a sua presença protectora. Temos medo de quê, se Deus é a mãe que nos ama de forma absoluta, que vigia o berço onde nós dormimos, que vela e nos serena com a sua presença e a sua solicitude maternal?
• A fotografia de Deus que o profeta nos apresenta convida-nos a descobrir um Deus que não é interesseiro, chantagista, negociante… O nosso Deus é um Deus que nos ama, gratuitamente, de forma absoluta e eterna – como uma mãe ama o filho, mesmo quando ele é rebelde. Qual é, na verdade, o Deus em quem acreditamos?
• O amor de Deus não é condicional e não espera nada em troca. É este amor desinteressado que procuramos testemunhar, ou os nossos gestos de bondade, de amizade, de misericórdia são um negócio em que esperamos ganhar?

2ª Leitura 1Cor 4,1-5

• A reflexão de Paulo convida-nos, em primeiro lugar, a tomar consciência daquilo que é essencial na nossa fé: a proposta de salvação/libertação que, em Jesus, Deus oferece aos homens. É isso e apenas isso que deve atrair o nosso olhar e encher o nosso coração. Não convém perder isto de vista: o cristianismo não é a adesão a uma determinada filosofia ou estilo de vida, nem a aceitação de uma moda que agora está “in” mas a qualquer momento pode ficar “out”; mas é o abrir o coração à oferta de salvação que, em Jesus, Deus nos faz.
• Portanto, não interessam muito os “invólucros”, através dos quais a proposta de salvação de Deus nos chega: se o padre é simpático ou não, se o seu discurso é cativante ou não, se temos razões de queixa contra ele ou não, se ele tem muitos defeitos ou muitas virtudes… O essencial é a mensagem; os mensageiros são apenas veículos mais ou menos imperfeitos dessa mensagem eterna.
• Os veículos da mensagem – sejam eles padres ou leigos – devem ter consciência de que não estão a anunciar-se a si próprios… Por isso, devem evitar atrair sobre si as luzes da ribalta; devem apresentar a proposta salvadora de Deus com fidelidade e coerência – sem adoçar as palavras e sem procurar fazer jogos de “charme”; devem assumir-se como discretos e fiéis “servos de Cristo e administradores dos mistérios de Deus”.
• Paulo refere o seu desinteresse em relação ao julgamento dos homens; só lhe interessa o julgamento de Deus. Estas palavras, no entanto, não podem servir para justificar comportamentos arbitrários ou prepotentes por parte dos animadores das comunidades cristãs (“faço o que me apetece e não tenho de dar satisfações a ninguém”…). Devem ser entendidas no contexto em que se apresentam: Paulo está, apenas, a dizer que não lhe interessam os juízos dos homens acerca do seu jeito para brilhar com as palavras; só lhe interessa ser fiel à missão que Deus lhe confiou.

Evangelho Mt 6,24-34

• A primeira grande questão que, neste texto, Jesus nos coloca é a questão das nossas prioridades. Dia a dia somos bombardeados com um conjunto de propostas mais ou menos aliciantes, que nos oferecem a chave da felicidade e da vida plena: o dinheiro, o êxito profissional, a progressão na carreira, a beleza física, os aplausos das multidões, o poder… E estes ou outros valores semelhantes – servidos por técnicas de publicidade enganosa – tornam-se o “objectivo final” na vida de tantos dos nossos contemporâneos. No entanto, Jesus garante-nos que a vida plena não está aqui e que, se estes valores se tornam a nossa prioridade fundamental, a nossa vida terá sido um tremendo equívoco. Para Jesus, é no “Reino” – isto é, na aposta incondicional em Deus e no acolhimento do seu projecto de salvação/libertação – que está o segredo da nossa realização plena. Quais são as minhas prioridades? Em que é que eu tenho apostado incondicionalmente a minha vida?
• As propostas equívocas de felicidade criam, muitas vezes, desorientação e confusão. Ao encherem o coração do homem de ídolos com pés de barro, afastam o homem de Deus e deixam-no perdido e sem referências, só diante de um mundo hostil – como criança perdida, indefesa, impotente. Jesus lembra-nos, porém, que Deus é um Pai cheio de solicitude e de amor, permanentemente atento às necessidades dos filhos (Ele até veste os lírios do campo e alimenta as aves do céu…). Ele convida-nos a colocar a nossa confiança e a nossa esperança nesse Pai que nos ama e a enfrentar o dia a dia com essa serena confiança que nos vem da certeza de que Deus é nosso Pai, conhece as nossas dores e necessidades e nos pega ao colo nos momentos mais dramáticos da nossa caminhada.
• A referência à incompatibilidade entre Deus e o dinheiro convida-nos a uma particular reflexão neste campo… O dinheiro é, hoje, o verdadeiro centro do poder no mundo. Ele compra consciências, poder, bem-estar, projecção social, reconhecimento e até compra amor. Por ele mata-se, calcam-se aos pés os valores mais fundamentais, renuncia-se à própria dignidade, envenena-se o ambiente (que interessa o buraco do ozono, a poluição dos rios, o desaparecimento das florestas, se isso fizer mais ricos os donos do mundo…), escravizam-se os irmãos. Quando a lógica do “ter mais” entra no coração do homem e o domina, o homem torna-se escravo e, por sua vez, leva a escravidão aos outros homens. Torna-se injusto, prepotente e explorador, passa indiferente ao lado dos irmãos que vivem abaixo do limiar da dignidade humana, deixa de ter tempo para gastar com aqueles que ama (o amor do dinheiro sobrepõe-se a todos os outros amores), relega Deus para a lista dos valores secundários, acha o “Reino” proposto por Jesus “uma absurda quimera”. Como nos situamos face a isto? Se tivermos que optar (não em termos teóricos, mas nas situações concretas da vida) entre o dinheiro e os valores do “Reino”, qual é que escolhemos?

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

AMAR ATÉ OS INIMIGOS

VII DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO A

Lv 19,1-2.17-18 – Sl 102 – 1 Cor 3,16-23 – Mt 5,138-48

O mandamento do amor ao próximo não era desconhecido antes de Jesus. De fato, no Antigo Testamento nunca se havia pensado em amar a Deus sem se interessar pelo próximo (1ª leitura). Nos Provérbios encontra-se até uma passagem que ressoa quase com as mesmas palavras do mandamento de Cristo: “Se teu inimigo tem fome, dá-lhe de comer; se tem sede dá-lhe de beber...” Mas é necessário acrescentar que a frase surge ali inteiramente isolada das demais.

Um mandamento paradoxal

Em sua formulação, em se conteúdo em sua forte exigência, o mandamento de Jesus é novo e revolucionário. É novo pelo se universalismo, por sua extensão em sentido horizontal: não conhece restrições de classe, não leva em conta exceções, limitações, raça, religião; dirige-se ao homem nas unidade e na igualdade de sua natureza. É novo pela medida, pela intensidade, por sua dimensão vertical. A medida é dada pelo próprio modelo que nos é apresentado: “Dou-vos um mandamento novo, que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei, assim amai-vos uns aos outros”. A medida de nosso amor para com o próximo é, pois, o amor que Cristo tem por nós; ou melhor, o mesmo amor que o Pai tem por Cristo: porque “Como o Pai me amou também eu vos amei”. Deus é amor e nisto se manifestou o seu amor: ele nos amou primeiro e enviou seu Filho para expiar nossos pecados. É novo pelo motivo que nos propõe: amar por amor de Deus, pelas mesmas finalidades de Deus; exclusivamente desinteressado; com amor puríssimo; sem sombra de compensação. Amar-nos como irmãos, com um amor que procura o bem daquele a quem amamos, não o nosso bem. Amar como Deus, que não busca o bem na pessoa a quem ama, mas cria nela o bem, amado-a. É novo porque Cristo o eleva ao nível do próprio amor de Deus. Se a concepção judaica podia deixar crer que o amor fraterno, se põe no mesmo plano dos outros mandamentos, a visão cristã lhe dar um lugar central, único. No Novo testamento o amor do próximo está indissoluvelmente ligado ao preceito do amor de Deus.

Temos inimigos a perdoar?

“A fé... lembra ao cristão os mandamentos de Deus e proclama o espírito das bens-aventuranças; convida a ser paciente e bondoso, a eliminar a inveja, o orgulho, á maledicência, a violência; ensina a tudo crer, tudo esperar, tudo sofrer, porque o amor nunca passará”.Mas insiste ainda: “Ama teu inimigo..., oferece a outra face...Não pagues co o mal o mal”. Quantos cristãos fizeram da palavra de Jesus a lei da sua vida! Q eu perdoa, Poe amor de Cristo crucificado, o assassino do seu irmão; pais que esquecem heroicamente ofensas recebidas dos filhos; esposos que superam as ofensas e culpas; homens políticos que não conservam rancor pelas calúnias, difamações, derrotas; operários que ajudam o companheiro de trabalho que tentou arruiná-los etc...

Não devemos também pedir perdão?


Em nome da religião e de Cristo, os cristãos se dividiram , dilacerando assim o corpo de Cristo. Viram no irmão um inimigo, se “excomungaram” reciprocamente, chamando-se hereges, queimando, queimando livros e imagens... Derramou-se sangue, explodiu ódio em guerras de religião. O orgulho, o desprezo e a falta de caridade caracterizaram as diatribes teológicas e os escritos apologéticos. Os inimigos de Deus e da Igreja, da religião combatidos com armas e com ódio. Travaram-se lutas, organizaram-se cruzadas. Hoje, a Igreja superou, ou encaminha para superar, muito dessas limitações. Não mais hereges, mas irmãos separados; não há mais adversários, mas interlocutores; não consideramos mais o que divide, mas antes de tudo o que une; não condenamos em bloco e a priori as grandes religiões não cristãs, mas nelas vemos autênticos valores humanos e pré-cristãos que nos permitem entrar em diálogo. Mas a intolerância e a polêmica estão sempre de atalaia. Não estaremos acaso usando dentro da própria Igreja, aquela agressividade e polêmica excessivas que outrora usávamos como os de fora da Igreja, aquela  agressividade e polêmica excessivas que outrora usávamos com os de fora da Igreja? Quantos cristãos engajados, uma vez faltando o alvo de fora, começaram a visar como “inimigos” os próprio irmãos na fé, e os combatem obstinadamente, sem amor! E  sem perdão!

sábado, 8 de fevereiro de 2014

HOMENS, LUZ DO MUNDO

V DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A

(Is 58,7-10 – SL 111 – Cor 2,1-5 – Mt 5, 13-16)

O trecho evangélico está no contexto das bem-aventuranças. Os que são proclamados bem-aventurados, não o são só par si mesmos, mas também perante o mundo; para a realidade terrestre são luz e sal. “Vós sois a luz do mundo”; Jesus disse estas palavras em primeiro lugar para os que crêem, os discípulos que são os pobres, os mansos, os que têm fome e sede de justiça... São luz não porque pertencem á Igreja, ou porque tenham uma doutrina de salvação a comunicar, nem porque são homens de oração e fiéis ao culto; mas, em primeiro lugar, porque são pobres, mansos, puros de oração...

Vejam vossas boas obras

A 1ª leitura acentua, Ao povo hebreu, preocupado com a prática exterior e irrepreensível do culto, atarefado em reconstruir o templo destruído, Deus lembra que, mais do que o esplendor do culto, o que lhe agrada é que hospedem os desabrigados, dividam o pão com o faminto...”Então a tua Liz romperá como aurora”. Não basta rezar e jejuar, A oração e o jejum devem ser acompanhados da ação, “para fazer brilhar a luz nas trevas”, A abstinência do alimento vale pouco se não for para nutrir o faminto. Como pode o discípulo, concretamente, tornar-se “sal da terra e luz do mundo”, está dito também claramente no evangelho quando conclui: “Vejam as vossas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus”. Não são as palavras que dão testemunho da vinda do reino de Deus, mas a pratica da vida, o comprometer-se em tarefas construtivas. O discípulo deve misturar-se, penetrar profundamente no mundo para dar-lhe o sabor novo, o fermento de salvação trazido por Cristo.
No rito do batismo, o sacerdote entrega ao pai do batizado uma vela acesa no círio pascal. Cristo ressuscitado é a “luz”. O batizado é o “iluminado” que se insere na morte-ressurreição de Cristo. Viver a luz é da luz e o compromisso que o espera: o Espírito o “move”, o “arrasta”. As “obras da luz” são obra do Espírito através da fragilidade do homem. Não há lugar para presunção, vanglória, soberba.

Onde está hoje a luz que salva?

O evangelho fala de sal insípido, que “para nada serve senão ser lançado fora e pisado pelos homens”. Fala-se de luz escondida “sob o alqueire”. É em convite a “provar” a qualidade do nosso sal de cristãos de hoje, e a ver com que obstáculos ocultamos a luz do evangelho. A firmeza de Isaías não nos permite gracejar ou complicar com sutilezas a palavra de Deus.
Ainda hoje contam-se ás centenas de milhões os famintos no mundo, e estão sempre aumentando, conseqüência de uma lógica férrea, própria de um sistema econômico desumano, que acumula riqueza cada vez maiores nas mãos dos que estão fartos e despoja inexoravelmente os miseráveis. O embaraço ainda se torna maior quando lançamos um olhar sobre o mapa da fome, da miséria e da opressão “tradicionalmente cristãos” estão no auge da riqueza, da opulência. 

Sinal ou barreira

Surge então a pergunta se também nós, cristãos, não apoiamos um sistema injusto e opressor dos fracos e dos pobres. A pobreza do Terceiro Mundo e as estatísticas do subdesenvolvimento não se explica pela recusa da técnica, ou pela preguiça congênita e irremediável, mas pela secular exploração das matérias-primas, pela submissão forçada a uma raça, pelo comércio internacional baseado na intimidação ou na boicotagem, nas “ajudas” internacionais como modo de desfazer-se utilmente de mercadorias inúteis. Fica então uma interrogação: será que a luz de Cristo ainda ilumina este “mundo” ou, ao contrario, ilumina só um “mundo futuro”, para qual devemos caminhar como um êxodo? A comunidade cristã de hoje corre o risco de ocultar atrás de pesadas barreiras a luz de Cristo. A não-consciência da solidariedade no testemunho, o desinteresse por uma expressão comunitária da nossa fé, a política de se lavar as mãos quanto aos fatos em que não estão em jogo os nossos interesses, a intervenção ingênua em defesa da “ordem constituída” impedem ás nossa comunidades eclesiais de fazer ver a luz. É necessária uma continua reflexão a fim de que as estruturas não se tornem barreira ou contratestemunho da nossa Igreja. E a reflexão deve torna-se ação como sabedoria e eficácia, para não destruir nada de válido, para fazer brotar as sementes de bem que existem por toda parte e que esperam um bom terreno, um cultivo cuidadoso e o confiante recurso ao auxílio decisivo de Deus.


“LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO...”

sábado, 7 de dezembro de 2013

EXORTAÇÃO APOSTÓLICA EVANGELLI GAUDIUM

25 passagens publicada pelo Papa Francisco:



-- O grande risco do mundo atual, com sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada. Quando a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço para os outros, já não entram os pobres, já não se ouve a voz de Deus, já não se goza da doce alegria do seu amor, nem fervilha o entusiasmo de fazer o bem.
-- Há cristãos que parecem ter escolhido viver uma Quaresma sem Páscoa. Reconheço, porém, que a alegria não se vive da mesma maneira em todas as etapas e circunstâncias da vida, por vezes muito duras. Adapta-se e transforma-se, mas sempre permanece pelo menos como um feixe de luz que nasce da certeza pessoal de, não obstante o contrário, sermos infinitamente amados.
-- Posso dizer que as alegrias mais belas e espontâneas, que vi ao longo da minha vida, são as alegrias de pessoas muito pobres que têm pouco a que se agarrar.
-- Chegamos a ser plenamente humanos, quando somos mais do que humanos, quando permitimos a Deus que nos conduza para além de nós mesmos a fim de alcançarmos o nosso ser mais verdadeiro. Aqui está a fonte da ação evangelizadora. Porque, se alguém acolheu este amor que lhe devolve o sentido da vida, como é que pode conter o desejo de o comunicar aos outros?
-- Penso, aliás, que não se deve esperar do magistério papal uma palavra definitiva ou completa sobre todas as questões que dizem respeito à Igreja e ao mundo. Não convém que o Papa substitua os episcopados locais no discernimento de todas as problemáticas que sobressaem nos seus territórios. Neste sentido, sinto a necessidade de proceder a uma salutar «descentralização».
-- Com obras e gestos, a comunidade missionária entra na vida diária dos outros, encurta as distâncias, abaixa-se – se for necessário – até a humilhação e assume a vida humana, tocando a carne sofredora de Cristo no povo. Os evangelizadores contraem assim o «cheiro de ovelha», e estas escutam a sua voz.
-- Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo atual que à auto-preservação. A reforma das estruturas, que a conversão pastoral exige, só se pode entender neste sentido: fazer com que todas elas se tornem mais missionárias, que a pastoral ordinária em todas as suas instâncias seja mais comunicativa e aberta, que coloque os agentes pastorais em atitude constante de «saída» e, assim, favoreça a resposta positiva de todos aqueles a quem Jesus oferece a sua amizade.
-- Dado que sou chamado a viver aquilo que peço aos outros, devo pensar também numa conversão do papado. Compete-me, como Bispo de Roma, permanecer aberto às sugestões tendentes a um exercício do meu ministério que o torne mais fiel ao significado que Jesus Cristo pretendeu dar-lhe e às necessidades atuais da evangelização.
-- No seu constante discernimento, a Igreja pode chegar também a reconhecer costumes próprios não diretamente ligados ao núcleo do Evangelho, alguns muito radicados no curso da história, que hoje já não são interpretados da mesma maneira e cuja mensagem habitualmente não é percebida de modo adequado. Podem até ser belos, mas agora não prestam o mesmo serviço à transmissão do Evangelho. Não tenhamos medo de os rever! Da mesma forma, há normas ou preceitos eclesiais que podem ter sido muito eficazes noutras épocas, mas já não têm a mesma força educativa como canais de vida.
-- Aos sacerdotes, lembro que o confessionário não deve ser uma câmara de tortura, mas o lugar da misericórdia do Senhor que nos incentiva a praticar o bem possível. Um pequeno passo, no meio de grandes limitações humanas, pode ser mais agradável a Deus do que a vida externamente correto de quem transcorre os seus dias sem enfrentar sérias dificuldades.
-- A Igreja «em saída» é uma Igreja com as portas abertas. Sair em direção aos outros para chegar às periferias humanas não significa correr pelo mundo sem direção nem sentido. Muitas vezes é melhor diminuir o ritmo, pôr de parte a ansiedade para olhar nos olhos e escutar, ou renunciar às urgências para acompanhar quem ficou caído à beira do caminho. Às vezes, é como o pai do filho pródigo, que continua com as portas abertas para, quando este voltar, poder entrar sem dificuldade.
-- Se a Igreja inteira assume este dinamismo missionário, há-de chegar a todos, sem exceção. Mas, a quem deveria privilegiar? Quando se lê o Evangelho, encontramos uma orientação muito clara: não tanto aos amigos e vizinhos ricos, mas sobretudo aos pobres e aos doentes, àqueles que muitas vezes são desprezados e esquecidos, «àqueles que não têm com que te retribuir» (Lc 14, 14). Não devem subsistir dúvidas nem explicações que debilitem esta mensagem claríssima. Hoje e sempre, «os pobres são os destinatários privilegiados do Evangelho», e a evangelização dirigida gratuitamente a eles é sinal do Reino que Jesus veio trazer. Há que afirmar sem rodeios que existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres. Não os deixemos jamais sozinhos!
-- Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos.
-- Assim como o mandamento «não matar» põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim também hoje devemos dizer «não a uma economia da exclusão e da desigualdade social». Esta economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa. Isto é exclusão. Não se pode tolerar mais o fato de se lançar comida no lixo, quando há pessoas que passam fome. Isto é desigualdade social. Hoje, tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco. Em consequência desta situação, grandes massas da população vêem-se excluídas e marginalizadas: sem trabalho, sem perspectivas, num beco sem saída. O ser humano é considerado, em si mesmo, como um bem de consumo que se pode usar e depois lançar fora. Assim teve início à cultura do «descartável», que aliás chega a ser promovida. Já não se trata simplesmente do fenômeno de exploração e opressão, mas duma realidade nova: com a exclusão, fere-se, na própria raiz, a pertença à sociedade onde se vive, pois quem vive nas favelas, na periferia ou sem poder já não está nela, mas fora. Os excluídos não são «explorados», mas resíduos, «sobras».
-- Hoje, em muitas partes, reclama-se maior segurança. Mas, enquanto não se eliminar a exclusão e a desigualdade dentro da sociedade e entre os vários povos será impossível desarraigar a violência. Acusam-se da violência os pobres e as populações mais pobres, mas, sem igualdade de oportunidades, as várias formas de agressão e de guerra encontrarão um terreno fértil que, mais cedo ou mais tarde, há-de provocar a explosão. Quando a sociedade – local, nacional ou mundial – abandona na periferia uma parte de si mesma, não há programas políticos, nem forças da ordem ou serviços secretos que possam garantir indefinidamente a tranqüilidade.
-- O individualismo pós-moderno e globalizado favorece um estilo de vida que debilita o desenvolvimento e a estabilidade dos vínculos entre as pessoas e distorce os vínculos familiares. A ação pastoral deve mostrar ainda melhor que a relação com o nosso Pai exige e incentiva uma comunhão que cura, promove e fortalece os vínculos interpessoais. Enquanto no mundo, especialmente nalguns países, se reacendem várias formas de guerras e conflitos, nós, cristãos, insistimos na proposta de reconhecer o outro, de curar as feridas, de construir pontes, de estreitar laços e de nos ajudarmos «a carregar as cargas uns dos outros» (Gal 6, 2).
 
-- Há certo cristianismo feito de devoções – próprio duma vivência individual e sentimental da fé – que, na realidade, não corresponde a uma autêntica «piedade popular». Alguns promovem estas expressões sem se preocupar com a promoção social e a formação dos fiéis, fazendo-o nalguns casos para obter benefícios econômicos ou algum poder sobre os outros.
-- A nossa tristeza e vergonha pelos pecados de alguns membros da Igreja, e pelos próprios, não devem fazer esquecer os inúmeros cristãos que dão a vida por amor: ajudam tantas pessoas seja a curar-se seja a morrer em paz em hospitais precários, acompanham as pessoas que caíram escravas de diversos vícios nos lugares mais pobres da terra, prodigalizam-se na educação de crianças e jovens, cuidam de idosos abandonados por todos, procuram comunicar valores em ambientes hostis, e dedicam-se de muitas outras maneiras que mostram o imenso amor à humanidade inspirado por Deus feito homem. Agradeço o belo exemplo que me dão tantos cristãos que oferecem a sua vida e o seu tempo com alegria.
-- Uma das tentações mais sérias que sufoca o fervor e a ousadia é a sensação de derrota que nos transforma em pessimistas lamurientos e desencantados com cara de vinagre.
-- O mundanismo espiritual, que se esconde por detrás de aparências de religiosidade e até mesmo de amor à Igreja, é buscar, em vez da glória do Senhor, a glória humana e o bem-estar pessoal.
-- Ser Igreja significa ser povo de Deus, de acordo com o grande projeto de amor do Pai. Isto implica ser o fermento de Deus no meio da humanidade; quer dizer anunciar e levar a salvação de Deus a este nosso mundo, que muitas vezes se sente perdido, necessitado de ter respostas que encorajem, dêem esperança e novo vigor para o caminho. A Igreja deve ser o lugar da misericórdia gratuita, onde todos possam sentir-se acolhidos, amados, perdoados e animados a viverem segundo a vida boa do Evangelho.
-- Não podemos pretender que todos os povos dos vários continentes, ao exprimir a fé cristã, imitem as modalidades adotada pelos povos europeus num determinado momento da história, porque a fé não se pode confinar dentro dos limites de compreensão e expressão duma cultura. É indiscutível que uma única cultura não esgota o mistério da redenção de Cristo.
-- A homilia não pode ser um espetáculo de divertimento, não corresponde à lógica dos recursos mediáticos, mas deve dar fervor e significado à celebração. É um gênero peculiar, já que se trata de uma pregação no quadro duma celebração litúrgica; por conseguinte, deve ser breve e evitar que se pareça com uma conferência ou uma lição.
-- Peço a Deus que cresça o número de políticos capazes de entrar num autêntico diálogo que vise efetivamente sanar as raízes profundas e não a aparência dos males do nosso mundo. A política, tão denegrida, é uma sublime vocação, é uma das formas mais preciosas da caridade, porque busca o bem comum. Temos de nos convencer que a caridade «é o princípio não só das micro-relações estabelecidas entre amigos, na família, no pequeno grupo, mas também das macro-relações como relacionamentos sociais, econômicos, políticos». Rezo ao Senhor para que nos conceda mais políticos, que tenham verdadeiramente a peito a sociedade, o povo, a vida dos pobres. É indispensável que os governantes e o poder financeiro levantem o olhar e alarguem as suas perspectivas, procurando que haja trabalho digno, instrução e cuidados sanitários para todos os cidadãos. E porque não acudirem a Deus pedindo-Lhe que inspire os seus planos? Estou convencido de que, a partir duma abertura à transcendência, poder-se-ia formar uma nova mentalidade política e econômica que ajudaria a superar a dicotomia absoluta entre a economia e o bem comum social.
-- A primeira motivação para evangelizar é o amor que recebemos de Jesus, aquela experiência de sermos salvos por Ele que nos impele a amá-Lo cada vez mais. Com efeito, um amor que não sentisse a necessidade de falar da pessoa amada, de a apresentar, de a tornar conhecida, que amor seria?
 

terça-feira, 19 de novembro de 2013

NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO — ANO C


SOLENE ENCERRAMENTO DO ANO DA FÉ
ABERTURA DA CAMPANHA NACIONAL PARA A EVANGELIZAÇÃO
DIA DO LEIGO

A celebração de hoje marca o ponto de chegada do nosso ano litúrgico. Celebramos, neste período, os mistérios da vida de Jesus Cristo, desde seu nascimento até sua morte e ressurreição, sua ascensão, Pentecostes, a memória da Virgem Maria e dos Santos, conduzidos, neste ano, pelo evangelista Lucas. No último domingo do ano litúrgico celebramos a Festa de Cristo Rei, significando que na caminhada de mais um ano de fé, queremos coroá-lo como nosso Rei. Por isso, a liturgia nos convida a contemplar a realeza e a divindade de Cristo: é o Rei da paz, do amor, da justiça, da santidade. Neste domingo, concluímos o Ano da Fé, instituído pelo Papa Emérito Bento XVI, em 11 de outubro de 2012, quando celebramos os 50 anos de abertura do Concílio Vaticano II. A Igreja no Brasil comemora hoje o dia dos leigos, os missionários do Reino de Deus nas diferentes áreas e atividades que tecem a vida humana, religiosa e social. Louvamos a Deus por tantas mulheres e homens que vivem profundamente sua vocação batismal, colocando-se inteiramente a serviço da Boa Nova, anunciada, vivida e celebrada.

SOLENIDADE JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO SENHOR DA PAZ E DA UNIDADE
Cristo é chamado a dirigir o povo de Deus, a ser condutor; sua realeza é de origem divina e tem primado sobre tudo porque nele o Pai pôs a plenitude de todas as coisas. No entanto, o evangelho de Lucas apresenta a realeza de Jesus narrando a paródia de sua investidura como Rei dos Judeus na cruz, que lembra a outra paródia que se deu no pretório de Pilatos e narrada pelos outros evangelistas. A investidura real de Jesus se desenrola em torno da cruz, trono improvisado do novo Messias. Para tornar mais evidente essa aproximação, Lucas recorda a inscrição que encabeça a cruz, mas sem dizer que se trata de um motivo de condenação. Assim, a inscrição tem lugar da palavra de investidura, como o Pai que investe seu Filho no batismo. Além disso , Lucas introduz aqui um episódio que se refere a outro lugar e lhe acrescenta uma frase com qual a multidão espera que Jesus se manifeste como rei; mas ele não quer que sua realeza lhe advenha da fuga á sua sorte, e sim de sua fidelidade a ela!
CRISTO, REI DA RECONCILIAÇÃO
Como em todas as coisas importantes da lei mosaica, é necessário que a entronização seja reconhecida por duas testemunhas. Mas, enquanto as testemunhas da investidura real da transfiguração são dois entre as principais personagens do Antigo Testamento e as testemunhas da ressurreição são também misteriosas, as duas testemunhas da entronização de Gólgota são apenas dois vulgares bandidos. Investidura ridícula daquele que só será rei assumido até o fim o escárnio!
Lucas coloca a seguir deste trecho o episódio dos dois ladrões, como que a indicar que, para Cristo, o modo de exercer sua realeza sobre todos os homens, inclusive sobre os inimigos, é oferecendo-lhes o perdão. Lucas é muito sensível a está ideia em toda a narrativa da paixão, mas aqui ele chega ao máximo. Com esse perdão, Cristo se a apresenta como o novo Adão, aquele que pode ajudar a humanidade a reintegrar o paraíso perdido pelo primeiro homem. É preciso ainda que essa humanidade nova aceite o perdão de Deus e não se volte orgulhosamente sobre si mesma. Cristo em que poderá chega ao momento de sua vida, em que poderá inaugurar uma nova humanidade, libertada das alienações do pecado; oferece ao bom ladrão participar dela, porque a sua vontade de perdoar é sem limites. O reino de Cristo se manifesta sobre os convertidos.
CRISTO, REI DO PERDÃO
            Os termos Rei e Messias ressoam em torno da cruz em frases zombeteiras e assegura ao malfeitor arrependido a entrada no reino do Pai. Também diante dos adversários mais encarniçados, Jesus dirá palavras de perdão: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”. Jesus exerce pois, e manifesta sua realeza não nas afirmações de um poder despótico, mas no serviço de um perdão que busca a reconciliação.
Ele é o primogênito de toda criatura, e como todas as coisas foram criadas nele, “foi do agrado de Deus reconciliar consigo todas as coisas, por meio dele, estabelecendo a paz no sangue da sua cruz”. Cristo é rei porque, perdoando e morrendo para remissão dos pecados, cria uma nova unidade entre homens. Quebrando a corrente do ódio, oferece a possibilidade de um novo futuro.
UM REI QUE VEIO PARA SERVIR
Reconhecendo que Jesus é rei, cremos que com ele Deus manifestou plenamente que a realização do homem só se pode dar pela obediência á sua vontade. Não há ação do homem que não seja sob o juízo de Deus. Não pode haver lugar na história sem relação com Deus por meio de Jesus.
A doutrina do senhorio de Cristo nos ensina ainda que a vida a que somos chamados é a mesma que viveu Jesus Cristo; vida de serviço aos irmãos. Vivendo-a, confessamos seu senhorio e nos tornamos, como ele, homens de paz e de reconciliação.
Na Igreja de Cristo, como em toda comunidade, o ministério da autoridade é dado não para  afirmação pessoal, mas a função da unidade e caridade. Cristo, bom pastor, veio não para ser servido, mas para servir e dar a vida pelas ovelhas. Essas afirmações ajudam a evitar as ambiguidades inerentes ao conceito de realeza quando não compreendido no sentido da realeza de Cristo.