terça-feira, 17 de junho de 2014

SOLENIDADE DO SANTÍSSIMO CORPO E SANGUE DE CRISTO ANO A


CRISTO PERMANECE CONOSCO NO SINAL DA SUA PÁSCOA

1.ª Leit. – Deut 8, 2-3. 14b-16a; Sal – 147, 12-13. 14-15. 19-20; 2.ª Leit. – 1 Cor 10, 16-17; Evangelho – Jo 6, 51-58.

 A festa que hoje celebramos é um convite a decifrar a mistério que se esconde por detrás do “Pão e Vinho repartidos”.

Na primeira leitura o Povo de Deus experimentou a presença e a bondade do Senhor na caminhada pelo deserto, durante quarenta anos, quando as dificuldades o atormentavam e recebia do Céu pontualmente a resposta às suas carências. A vida de fé ensina-nos que também nós, muitas vezes na vida, experimentamos a bondade de Deus para conosco.

O salmo 147 que a Liturgia nos convida a cantar como resposta à interpelação que o Senhor nos com a primeira leitura, combina o louvor com o reconhecimento da ação divina sobre a criação e o Seu Povo.

Na segunda leitura, S. Paulo dá resposta à questão posta sobre se podiam comer ou não as carnes de animais que antes tinham sido imoladas nos templos idolátricos e depois comidas em banquetes sacrificiais promovidos pelos devotos, ou vendidas no mercado e diz-nos que a Sagrada Eucaristia não é mero sinal significativo de unidade – todos comem do mesmo pão –, mas é sobretudo um sinal que produz a unidade; precisamente porque contém Jesus Cristo, cimenta a unidade inaugurada no Batismo.

No Evangelho Jesus apresenta-Se-nos no discurso à multidão para quem multiplicara miraculosamente os pães e os peixes, como o verdadeiro alimento do Céu que o pai nos dá.

REFLEXÃO HOMILÉTICA

“Hoje a Igreja nos convida: ao pão vivo que dá vida vem com ela celebrar!” É, precisamente, este o sentido da solenidade de hoje: celebrar, proclamar, professar, expressar a nossa fé inabalável na presença real do Cristo morto e ressuscitado nas espécies eucarísticas do Pão e do Vinho!

Esta é a nossa fé: acreditamos com todo o nosso coração e com toda a nossa mente que, nas espécies eucarísticas oferecidas como Sacrifício de Cristo – sacrifício único, perfeito, eterno – o Senhor Jesus está realmente presente no seu Corpo e no seu Sangue, alma e divindade, tão perfeito e real como está no céu. Diante do pão e do vinho consagrados, podemos cantar, como o povo cristão canta: “Deus está aqui! Ó vinde, adoradores, adoremos a Cristo redentor!”. Nas espécies consagradas já não há mais pão, já não há mais vinho: há somente o Corpo e o Sangue do Senhor morto e ressuscitado, todo no que era vinho, todo no que era pão. É Ele: adorável, amável, Vida para nossa vida! Trata-se de um Mistério de fé que só pode ser compreendido de joelhos! Trata-se de uma realidade concreta que só pode ser apreendida se abrirmos o coração ao desígnio amoroso e salvífico de Deus! Não há como perceber, não há como provar, não há como demonstrar cientificamente! Não podemos apreendê-lo, capturá-lo com a nossa razão e os nossos sentidos: o paladar falha, pois saboreia pão e vinho; o tacto falha, pois toca pão e vinho; a visão falha, pois vê apenas pão e vinho; o olfato falha, pois cheira só pão e vinho... Só pelo ouvido, que crê o que escuta, podemos perceber o Mistério; só a audição não falha:

“Isto é o Meu corpo; isto é o Meu sangue! Eu sou o pão vivo descido do céu. O pão que Eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo!”.

Que mistério tão grande: o pão que Cristo dá é a carne dada, a carne sacrificada, entregue na cruz, para a vida do mundo! Que mistério! Que amor!

Os judeus entenderam, os judeus contestaram, os judeus escandalizaram-se, os judeus abandonaram-n’O! Infelizmente, há cristãos que não entendem, que contestam, que se escandalizam e não comem nem bebem a Vida que dura eternamente!

Mas, Jesus insiste: “Em verdade, em verdade os digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o Seu sangue, não tereis a vida em vós! Quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue tem a vida eterna e Eu o ressuscitarei!”

– São palavras impressionantes, quase que inacreditáveis: o corpo e sangue de Jesus devem ser comidos como fonte de vida! Não de qualquer vida, mas da vida eterna, vida de Deus! Esta vida é o próprio Espírito Santo, que ressuscitou Jesus e que impregna o Seu Corpo e Sangue nas espécies eucarísticas! Por isso, na comunhão, recebemos, comemos a Vida já agora e plantamos esta Vida para a ressurreição final!

“Porque a Minha carne é verdadeira comida e o Meu sangue, verdadeira bebida. Quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue permanece em mim e Eu nele!”

– O que mais Jesus poderia dizer para deixar mais claro e patente que a Sua presença na Eucaristia é realmente real?

É “verdadeiramente comida, é verdadeiramente bebida!” “Como o Pai que Me enviou vive – é o Deus vivente e pleno de vida –, e Eu vivo pelo Pai, o que come de mim viverá por mim!”

– Que dom, que graça: viver por Jesus, viver com a mesmíssima vida que Jesus ressuscitado recebeu do Pai: viver daquela vida escondida no pão e no vinho! Eis o dom que o Senhor faz de si mesmo! E Jesus conclui, no Evangelho de hoje:

“Este é o pão que desceu do céu, não é um simples pão deste mundo! Não é como aquele que os vossos pais comeram. Eles morreram! O maná não dava a vida divina, o maná não era transfigurado pelo Espírito Santo, Senhor que dá a vida! Aquele que come este pão viverá para sempre!”

Na travessia do deserto da vida, o Senhor conduz-nos entre humilhações e provas, que nos revelam quem somos, o que temos no coração... O Senhor não nos infantiliza, não nos livra dos embates da existência, mas permanece conosco:

“Não te esqueças do Senhor teu Deus, que te fez sair da terra do Egito, da casa de escravidão, e te conduziu através do imenso e temível deserto, entre serpentes venenosas e escorpiões,terreno árido e sem águas. Foi Ele quem, da rocha dura, fez nascer água para ti e, no deserto, te deu a comer o maná, que teus pais não tinham conhecido” para te mostrar que “nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus!”
Nos nossos desertos, neste deserto da longa história humana, que a Igreja vai atravessando, nutramo-nos desse pão e bebamos da bebida que sai do Cristo, nossa Rocha! Este alimento verdadeiro, de vida verdadeira, temo-lo no altar.

terça-feira, 10 de junho de 2014

HOMILIA DOMINICAL - SANTÍSSIMA TRINDADE - ANO A



DEUS É COMUNIDADE DE AMOR

Ex 34,4b-6.8-9 –  Sl Dn 3 – 2Cor 13,11-13 – 2Cor 13,11-13 – Ev Jo 3,16-18

Quando o homem olha para dentro de si, a fim de analisar sua experiência religiosa, tem a sensação de um abismo sem fundo, uma profundeza infinita. A essa profundeza inatingível de nosso ser refere-se a palavra “Deus”. Deus significa isto: a profundeza última da nossa vida, a fonte de nosso ser, a meta de todos os nossos esforços. Esse fundo íntimo do nosso ser manifesta-se na abertura do nosso “eu” para um “tu”, e na seriedade dessa inclinação. Vemos sim impressa em nosso ser a realidade profunda e grandiosa do Deus cristão, a Trindade. Isto é, o mistério de um Deus que é comunidade e comunhão de vida. Um Deus que é Pai, Filho, Espírito Santo.
A comunhão com Deus, fim do homem
O próprio Deus vem ao homem, manifesta-se a ele como “Senhor”, mas cheio de bondade e misericórdia, rico em graça e fidelidade (1ª leitura). Na exuberância de seu amor pelo mundo, manifestado no dom de seu Filho único para salvá-lo (evangelho), o Deus do amor e da paz derrama sobre os homens sua graça em Cristo, e os chama à comunhão com ele no Espírito Santo (2ª leitura). A comunidade Trinitária é verdadeiramente o valor último e supremo, o único verdadeiro fim último do homem, uma vez que Deus, e somente Deus, é a plenitude de toda perfeição.
A comunidade Trinitária é verdadeiramente mistério, realidade que supera absolutamente toda compreensão humana.Deus jamais deixará de causar admiração do homem, e nunca homem algum penetrará na terra de Deus se não estiver disposto a se desarraigar, como Abraão, das fronteiras de suas limitações e da estreiteza de suas seguranças. A oração não deve reduzi Deus aos limites do homem; mas deve dilatar o homem aos horizontes de Deus. O silêncio, que o Pai parece opor em muitos casos aos pedidos humanos, nasce da autenticidade de sua paternidade, de sua firmeza em não condescender com a mesquinhez dos planos humanos, para poder substituí-los por planos bem maiores. Nascidos do seu amor. A comunidade Trinitária é o verdadeiro futuro do homem, só ela pode assegurar ao homem um plano de vida sem limites, porque capaz de superar até a morte. Diz eficazmente santo Agostinho: “Deus é tão inexaurível que quando encontrado falta tudo para encontrá-lo”. Isso significa que o dinamismo e criatividade humana encontram nele um horizonte sem limites; portanto, um futuro total.
Um só Deus em três pessoas
Esta revelação não vem simplesmente satisfazer nossa necessidade de conhecer a Deus; concerne diretamente ao destino do homem e da criação.
De fato, a salvação, como a comunhão de amor entre Deus e o homem, reflete as características dos dois interlocutores que a constituem; Deus e o homem. Ora, o homem só pode ser compreendido a partir de Deus feito á imagem de Deus, é plasmado conforme Cristo, que é a imagem perfeita de Deus, Portanto, as perguntas e respostas sobre Deus são de uma importância fundamental para compreender o homem. Concretamente, a vida humana, de um ponto de vista religioso, desenvolve-se e se expande proporcionalmente ao “conhecimento” do mistério de Deus. Se o homem é destinado á comunhão com Deus Pai, é claro que sua vida tem tanto mais valor quanto mais ele consegue segui o movimento de “subida aos céus” inaugurado pela ascensão de Jesus, até sentar-se á direita do Pai para vê-lo face a face. O mistério do amor Trinitário revela algo do mistério mais profundo do homem; por sermos como somos, criaturas capazes de conhecer, amar, gerar, só podemos exprimir-nos em termos humanos, mas chegamos com mais profunda admiração ao último porquê: como pôde ter nascido a idéia de “conhecer”, “amar”, “gerar”? Não nasceu. Ela é. Porque Deus é amor. O mistério de Deus não é um mistério de solidão, mas de convivência, criatividade, conhecimento, amor, de dar e receber, e por isso, somos como somos.
Busca a Deus
Em nossa vida cotidiana, ás vezes trágica ou muito complicada, em que devemos cuidar de mil coisas que nos pressiona de toda parte, a luz de Deus é amor. Devemos voltar-nos para esta luz se não nos quisermos desviar do verdadeiro fim de nossa existência. Gostaríamos de poder dizer: “Aqui está Deus; é assim...” Mas não é possível. O próprio Deus sai do quadros e das imagens e se oculta naqueles que precisam de nós, e diz: “Aqui estou” Esconde-se nos pequeninos da terra e diz: “Buscai-me aqui” Quem quer viver com Deus não se encontra diante de uma conclusão, mas sempre adiante de um início, novo como cada novo dia. 

segunda-feira, 2 de junho de 2014

A IGREJA VIVE NO ESPÍRITO DE CRISTO


SOLENIDADE DE PENTECOSTES

At 2,1-11 - Sl 103 - Cor 12,3b-7 - Ev Jo 20,19-23

A solenidade de Pentecostes celebra um acontecimento capital para a Igreja: a sua apresentação ao mundo, o nascimento oficial com o batismo no Espírito. Complemento da Páscoa, a vinda do Espírito sobre os discípulos manifesta a riqueza da vida nova no Ressuscitado no coração e na atividade dos discípulos; início e expansão da Igreja e princípio da sua fecundidade, ela se renova misteriosamente hoje para nós, como em toda assembléia e sacramental, e, de múltiplas formas, na vida das pessoas e dos grupos até o fim dos tempos. A “plenitude” do Espírito é a característica dos tempos messiânicos, preparados pela secreta atividade do Espírito de Deus que “falou por meio dos profetas” e inspira em todos os tempos os atos de bondade, justiça e religiosidade dos homens, até que encontre em Cristo seu sentido definitivo.

O Espírito da aliança universal e definitiva

Não se pode deixar de ligar o acontecimento do Sinai como o de Jerusalém; a assembléia das doze tribos corresponde á dos apóstolos, novo Israel; fogo e vento manifestam a presença do Deus vivo; é dada a lei da aliança, lei de liberdade que qualifica os filhos de Deus. A aliança, não mais limitada a um povo escolhido para dar conhecer o verdadeiro Deus, é aberta a todos os povos e a todas as raças; não mais caracterizada por um sinal na carne (a circuncisão), ela é espiritual e se exprime pela fé e o batismo (também o de desejo); não mais renovada por homens mortais no decorrer da história, e ela fundada em Cristo “que permanece eternamente”. E precisamente por ser espiritual e definitiva, sua encarnação atual na Igreja do nosso tempo com suas instituições e nas diversas igrejas esparsas por toda terra, com suas peculiaridades, tem valor sacramental, mas também relativo e caduco. É preciso, pois, não considerar absoluto e definitivo algo que não seja próprio Espírito, realidade profunda e inexaurível de tudo o que constitui a vida da igreja no tempo; ações sacramentais, hierarquia, ministérios e carismas, templos e lugares.

Espírito da fidelidade e da coragem

O batismo no Espírito ilumina a comunidade dos amigos de Cristo sobre seu mistério de Messias, Senhor e Filho de Deus; faz com que compreendam sua ressurreição como a plenificação dos planos de salvação de Deus, não só para o povo de Israel, mas para todo o mundo; leva-os a anunciá-lo em todas as línguas e circunstâncias, sem temer perseguições nem morte, Como os apóstolos, os mártires e todos os cristãos, que ouviram profundamente a vos do Espírito de Cristo, tornam-se testemunhas do que viram, do que foi transmitido que e experimentaram em sua existência. No mundo de hoje toda a nossa comunidade é chamada a colaborar co o Espírito da nova vida para renovar o mundo: tanto na atividade cotidiana como nas vocações extraordinárias. E isto, sem perder a coragem, porque “o Espírito vem em auxílio da nossa fraqueza”, corrige e incentiva nosso esforço, faz convergir tudo para o bem comum (2ª leitura), porque todo dom (todo carisma) vem dele, único Espírito do Pai e do Filho.

O Espírito da novidade em Cristo

“Sem o Espírito Santo, Deus está distante, o Cristo permanece no passado, o evangelho uma letra morta, a Igreja uma simples organização, a autoridade um poder, a missão uma propaganda, o culto um arcaísmo, e a cão moral uma ação de escravos.

Mas no Espírito Santo o cosmos é enobrecido pela geração do Reino, o Cristo ressuscitado está presente o evangelho se faz força no Reino, a Igreja realiza a comunhão trinitária, a autoridade se transforma em serviço, a liturgia é memorial e antecipação, a ação humana se deifica”.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

ASCENSÃO DO SENHOR - ANO A



O DESTINO DO HOMEM NOVO

1ª Leitura At 1,1-11 – 2ª Ef 1,17-23 – Ev. Mt 28,16-20

Interpretando teologicamente a Ascensão de Jesus, recomendam os anjos que não fique a olhar o céu, mas que se espere e prepare a volta gloriosa do Senhor. Esta é, até o fim dos tempos, a missão da Igreja, em tensão entre o visível é o invisível, entre a realidade presente e a futura cidade para qual caminhamos. 

O homem à direita de Deus 
 
A fórmula do nosso Creio: “Ressuscitou, subiu aos céus, está sentado à direita do Pai”, exprime a fé pessoa da Igreja no destino de Jesus de Nazaré. Este homem, com o qual os apóstolos “comeram e beberam” durante sua existência terrena, “torno-se Senhor” depois de sua morte porque o Pai o associou definitivamente à sua vida, ao seu poder sobre os homens e sobre o mundo: “Todo poder me foi dado no céu e na terra” (evangelho ano A). Vivo, depois de sua paixão (1ª leitura), está ele presente entre os seus numa dimensão, e anda com eles nos caminhos do mundo, aonde os envia como testemunha da ressurreição, anunciadores do perdão dos pecados e da vida de filhos de Deus, portadores da força do Espírito que reúne os homens e todas as nações na única Igreja. Com a fé e o batismo, todos os homens entram na nova dimensão do Ressuscitado, pensam e buscam “as coisas do alto, onde Cristo está sentado á direita de Deus”, participam, como membros do corpo de Cristo, da “plenitude daquele que completa inteiramente todas as coisas” (2ª leitura).
Pensando nesta realidade, podem-se compreender as expressões de entusiasmo dos antigos cristãos: “A ascensão do Cristo é a nossa ascensão; já que o Corpo é convidado a elevar-se até a glória em que precedeu a cabeça, vamos cantar nossa alegria expandir em ação de graças todo nosso júbilo. Hoje, não apenas conquistamos o paraíso, mas, no Cristo, penetramos nos mais altos céus”.

O céu é Alguém

Afirmar que a humanidade na pessoa do Cristo, já esta no céu, significa contestar as imagens espontâneas de um céu “espacial”, e a de uma felicidade eterna que começaria repentinamente, depois desta vida no tempo. Para Jesus, o céu é a participação plena da vida de Deus, de um homem verdadeiro, possuindo a mesma matéria e a mesma história de todo nós; uma relação nova entre o Criador e a criatura numa total transparência, livre dos limites e das dificuldades da condição terrena.  Pra nós será assim um dia, quando se manifestar abertamente aquilo que já somos; pelo conhecimento e o amor. O corpo não for mais obstáculo, mas perfeito meio de comunicação. Um céu assim não simplesmente a “recompensa” de uma vida justa e boa, porque “os sofrimentos do momento presente não são comparáveis com a glória futura que será revelada em nós. Nem tampouco um narcótico para pessoas passivas e resignadas, um álibi para o compromisso de trabalhar neste mundo pela realização daqueles valore de liberdade, justiça, paz, fraternidade, comunhão, vida, amor. Alegria, que constitui a bem-aventuranças do homem completo segundo o plano de Deus. Uma comunidade dos que crêem e caminham nesta direção – isto é, aberta ao mundo, a serviço de todos – torna-se testemunha da nova humanidade realizada em Cristo Jesus. 
 
Realidade terrestre e engajamento dos que crêem 
 
Um novo equilíbrio a ser encontrado: “Somos advertidos, com efeito, de que não adianta ao homem ganhar o mundo inteiro se vier a perder a si mesmo. Contudo, a esperança de uma nova terra, longe de atenuar, antes deve estimular a solicitude pelo aperfeiçoamento desta terra. Nela cresce o Corpo da nova família humana que já pode apresentar algum esboço do novo século. Por isso, ainda que o progresso terreno deva ser cuidadosamente distinguido do aumento do Reino de Cristo, contudo é de grande interesse par o Reino de Deus, na medida em que pode contribuir para organizar a sociedade humana”.

terça-feira, 20 de maio de 2014

6º DOMINGO DA PÁSCOA - A ANO

Primeira Leitura: At 8,5-8.14-17 
Impuseram-lhes as mãos, e eles receberam o Espírito Santo.
A morte de Estêvão foi o estopim para que em Jerusalém explodisse a perseguição contra os cristãos de cultura grega, à frente dos quais estava o próprio Estêvão. Por causa dela, os fiéis se dispersaram. Lucas vê nesse fato a chance providencial que a comunidade tem de levar o anúncio da palavra de Deus aos que ainda não a conhecem. Se em Jerusalém o anúncio provocou perseguição, na Samaria suscitará contentamento. Temos aqui uma das grandes forças da palavra de Deus: a capacidade de confraternizar povos inimigos (compare com Lc 9,51ss). De fato, judeus e samaritanos detestavam-se mutuamente. Agora, a Samaria acolhe o anúncio da Palavra, feito por intermédio de Filipe, um dos sete ministros (8,5; cf. 6,5).
Filipe é apresentado como modelo de evangelizador que sai de Jerusalém para levar o testemunho a todos (cf. 1,8). Fica, assim, caracterizado o tipo da comunidade evangelizadora: a que não põe fronteiras ao trabalho pastoral. A missão do evangelizador é prolongamento do que Jesus disse e fez. Consta de anúncio e de fatos. Filipe anuncia o Cristo (v. 5) e realiza milagres (v. 6). As duas atividades estão unidas entre si. Anunciar o Cristo é já mostrá-lo presente na ação concreta. Por isso, a pregação de Filipe é acompanhada pela expulsão dos espíritos maus e pela cura de paralíticos e aleijados (como fez o próprio Jesus). Em outras palavras, anunciar o Cristo é eliminar tudo o que aliena e despersonaliza o ser humano (demônios), dando às pessoas condições para que assumam responsavelmente a própria caminhada (cura dos paralíticos e aleijados). O clima que esses acontecimentos suscita é o da alegria messiânica (cf. 2,46; Lc 2,10), que contagia a quantos aceitam Jesus como o Libertador e Senhor de suas vidas (v. 8).
A Igreja de Jerusalém toma conhecimento do que a palavra de Deus realizou na Samaria. E envia para lá Pedro e João (v. 14). Sua tarefa é completar a evangelização mediante a oração e a imposição das mãos. Os samaritanos recebem o Espírito Santo. No plano de Lucas, realiza-se o Pentecostes dos pagãos (os samaritanos eram considerados pagãos pelos judeus). O Espírito vai conduzindo a evangelização, fazendo que muitos povos se integrem ao único povo messiânico. O Espírito não é propriedade dos apóstolos. Estes, sim, são servos do Espírito, pois ele os conduz e impulsiona. Assim, de acordo com At 1,8, os discípulos de Jesus se tornam testemunhas na Judéia (Jerusalém), na Samaria e até nos confins do mundo (o resto do livro dos Atos), pois o Espírito da Verdade (cf. evangelho) é o dinamismo da comunidade cristã missionária.                                              
Segunda Leitura: 1Pd 3,15-18 
Sofreu a morte na sua existência humana, mas recebeu nova vida pelo Espírito.
Os vv. 13-14, apesar de não constarem no texto lido hoje, ajudam na compreensão do contexto. 'Quem lhes fará mal, se vocês se esforçam em fazer o bem? Se sofrem por causa da justiça, felizes de vocês! Não tenham medo deles, nem fiquem assustados'. Pedro escreve a cristãos que sofrem (cf. II leitura do domingo passado). Os sofrimentos daquelas comunidades da Ásia Menor tinham duas causas: em primeiro lugar, a situação social em que viviam – eram migrantes, trabalhadores, escravos; em segundo lugar, a luta que sustentavam – queriam que fosse feita justiça, que seus direitos e dignidade fossem reconhecidos. Por causa disso eram vistos como subversivos.
Pedro lhes diz que, se sofrem por causa da justiça, são felizes (v. 14). É a concretização da bem-aventurança anunciada por Jesus (cf. Mt 5,10). Não são bem-aventurados pelo sofrimento em si. O sofrimento não faz ninguém feliz! São bem-aventurados por causa da motivação profunda que anima sua luta: a justiça que visa criar o reino de Deus, o projeto de Deus.
Pedro anima as comunidades, dizendo-lhes que não devem ter medo dos que as consideram subversivas e arrastam seus membros aos tribunais. Pelo contrário, devem 'santificar em seus corações o Senhor Jesus Cristo', ou seja, reconhecer de coração (plena e absolutamente) que o único Senhor é Jesus! Essa motivação deve estar sempre presente e animar todas as esperanças e anseios das pessoas (v. 15).
Bons modos, respeito e consciência limpa são os instrumentos para a conquista da justiça (v. 16a), resposta que desarma a grosseria, a violência e a corrupção dos que fomentam a injustiça. Temos aqui o ideal da não-violência ativa (cf. Mt 5,38-40), capaz de fazer ruir a sociedade injusta (v. 16b).
A norma de comportamento cristão é a prática de Jesus (v. 18). O justo morreu pelos injustos, a fim de os conduzir a Deus. Contudo, a morte de Jesus não quer dizer que a injustiça tenha vencido. Pelo contrário, da morte nasceu a vida nova do Espírito Santo. Esse mesmo Espírito é que age agora nos fiéis, levando-os à prática de Jesus. Fazendo o que ele fez, os cristãos oferecem sua colaboração indispensável na construção do reino de Deus. Esse reino é o ideal proposto por Deus, que coincide com os profundos anseios da humanidade sedenta de justiça, liberdade e dignidade reconhecida.
O v. 17 não pretende atribuir a Deus a vontade de fazer sofrer as pessoas. De fato, ele não sente prazer no sofrimento humano. O próprio Jesus o demonstrou. O sofrimento diminui o ser de Deus presente nas pessoas. Contudo, o projeto de Deus sabe valorizar o sofrimento. Do sofrimento nasce o desejo de liberdade e vida. E Deus o transforma em energia que supera as injustiças que o provocam.
Evangelho: Jo 14,15-21 
Eu rogarei ao Pai e ele vos dará outro Defensor.
Num contexto de ódio e de perseguição, a promessa feita por Jesus de dar aos discípulos o Espírito da Verdade reveste-se de suma importância. Foi a forma de protegê-los contra o erro e a mentira, ciladas montadas pelo mundo para desviá-los do bom caminho. Sem esta ajuda salutar, com muita probabilidade, deixar-se-iam levar pelas sugestões do falso espírito, chegando a renegar sua condição de discípulos. Pois, enquanto o Espírito da Verdade conduz ao Deus verdadeiro, o espírito da mentira conduz aos falsos deuses, aos ídolos.
O Espírito é designado como Paráclito, ajudante dos discípulos de Jesus. Assim, não seriam deixados à própria sorte, numa espécie de perigosa orfandade. A presença do Espírito de Verdade junto deles daria continuidade à de Jesus. Eles teriam sempre a quem recorrer, pois o Espírito estaria neles e "com eles para sempre".

A comunidade cristã sempre correria o sério risco de ser levada pelo espírito da mentira. Por isso, precisava da presença constante do Espírito da Verdade para manter-se sempre no bom caminho. Quanto maior esse risco, tanto mais necessária fazia-se a presença desse Espírito que conduz à verdade e à vida. Ele haveria de ser uma luz a expulsar as trevas, de modo a permitir aos discípulos caminhar com segurança rumo à casa do Pai.